Diz Guimarães Rosa que durante a travessia só prestamos atenção na saída e na chegada. E, assim, esquecemos de observar, ou perceber, as grandes transformações que estão ocorrendo à nossa frente. No último dia 21, o governador Jaime Lerner assinou em Campo Mourão, a ordem de serviço para a construção da Vila Rural 350. E foi um momento histórico porque garantiu o atendimento de 17 mil trabalhadores rurais volantes - os bóias-frias - até o final desse ano.
As dificuldades dessa travessia foram muitas: o governo federal, por exemplo, não participou do projeto, o que levou à utilização substancial dos recursos do próprio Tesouro estadual. E os recursos do Banco Mundial, destinados ao Programa Paraná 12 Meses ficaram bloqueados por quase dois anos no Senado.
Mas, mesmo assim, estamos chegando ao atendimento de 80 mil pessoas extremamente carentes do nosso meio rural, aqueles que vivem uma pobreza solitária e sem esperanças, distantes até mesmo da possibilidade de reivindicar a atenção do governo.
Ao atingir a marca de 350 vilas rurais, que se espalham por todos os cantos do nosso território, o Paraná dá vários exemplos ao Brasil. Nos últimos três anos e meio, em parceria com 270 dos 399 municípios, o governo adquiriu 124 milhões de metros quadrados de terras, da maneira mais pacífica e ordeira, sem desapropriações e sem lutas com proprietários rurais.
Essa operação agrária torna-se emblemática quando se sabe que aqui estão as terras mais férteis e de mais alto valor do País. Foi um investimento de R$ 37,5 milhões, para um custo total do programa na ordem de R$ 204 milhões.
Contou-se para se chegar a esses números, com a força de vontade e o entusiasmo dos prefeitos paranaenses, que não mediram esforços para implantar o programa em seus municípios. Eles perceberam, quase de imediato, o sentido da solidariedade e do respeito que caracteriza a Vila Rural: pela primeira vez o bóia-fria, o trabalhador mais fragilizado na escala social, teve a opção de não seguir o destino mais comum e mais cruel na busca da sobrevivência familiar, o caminho da grande cidade.
Cada morador de Vila Rural no Paraná significa um favelado a menos nas periferias urbanas, com a redução do custo social que isso representa para o governo como um todo. Porisso, pela amplitude que o programa contém e pela extrema carência da população envolvida, podemos considerar esse projeto como o de maior alcance social já realizado no Paraná. Para nós do governo do Estado, secretarias de Habitação, Agricultura, Criança e Trabalho, além de mais oito outras entidades governamentais diretamente responsáveis pelo programa, o que impulsiona na realização de cada trabalho, na construção de cada Vila Rural, é a possibilidade de dar ao trabalhador rural, ao bóia-fria, a chance de mudar seu destino.
A grande maioria das vilas já nos mostra exemplos de convivência e solidariedade entre os moradores. E de criatividade. A experiência bem sucedida num plantio é repassada de uma vila para outra. Os moradores se unem para descarregar calcário, sementes, adubo. Vão, aos poucos, construindo suas vidas, preparando o futuro.
É diante dessa nova realidade que o evento de Campo Mourão, que reuniu 30 mil moradores de todas as nossas vilas, num encontro de solidariedade, emocionou a todos. Comemorou-se ali um pouco de felicidade e alegria. De reconhecimento e de trabalho realizado.
Penso que cada paranaense deveria visitar a Vila Rural mais próxima. Iria certamente perceber, na prática, tudo o que se escreveu aqui. Veria, como disse no começo, que durante essa travessia para um Paraná industrializado e moderno, está se realizando, também, o desafio maior de todos os governos: desenvolver a economia, crescer e se modernizar sem ser perverso com os mais pobres. Ou, mais ainda, inserir nessa travessia, os que têm menos chances de chegar ao outro lado.
- RAFAEL DELY é secretário da Habitação do Paraná e presidente da Cohapar

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