A vida no Brasil é muito ruim
A redução das tarifas de ônibus em várias cidades, principal reivindicação dos protestos que tomam conta do País, não foi suficiente para reduzir o ímpeto dos manifestantes. A cada dia novos atos levam milhões às ruas.
E o leque de reivindicações tem aumentado a cada manifestação. Dos gastos para realização da Copa do Mundo à corrupção, da PEC 37, que reduz o poder de investigação do Ministério Público à baixa qualidade dos serviços públicos. Tudo virou alvo da insatisfação dos participantes dos atos.
Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Renato Perissinotto, essa diversidade de temas é prejudicial, uma vez que reduz a possibilidade de obter resultados concretos.
"Existe uma insatisfação difusa na sociedade brasileira porque a vida no Brasil, ao contrário do que as pessoas costumam dizer, é muito ruim, inclusive para a classe média. Convivendo com um trânsito caótico, tendo que pagar altos impostos, tendo que usar planos de saúde, que estão piorando cada vez mais. Então veio essa vontade de manifestar", analisa.
Qual a explicação para onda de protestos que tomou conta do País?
Nessa altura dos acontecimentos é difícil a gente falar de movimento no singular. Acho que poderia dividir a resposta em dois pontos: algo muito claro e coerente e, por outro lado, uma série de reivindicações difusas. O primeiro é que toda essa onda nasceu como um movimento muito claro, com uma reivindicação precisa e uma liderança clara, que é o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo, com ramificações pelo território brasileiro. E eles têm insistido nisso, que a mobilização se iniciou para pedir a redução da tarifa de ônibus.
O movimento tem uma pauta mais abrangente, mas que não está sendo veiculada agora, em torno do transporte público. Só que quando você começa a colocar gente na rua, se perde o controle de quem participa da mobilização. E este controle tende a ser menor à medida que os atos se expandem.
Então o que se vê é esta reivindicação clara, que tem que ser sistematicamente lembrada, sendo embaralhada por um conjunto de manifestações e reivindicações muito difusas, ambíguas, pouco específicas, que jamais poderiam se transformar numa pauta concreta. Então, neste momento, o que vemos é um movimento inicialmente muito específico, que começa a ser um pouco sufocado por um conjunto de reivindicações muito amplo, contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, por um Brasil melhor, coisas que você não sabe muito bem o que significa. São apenas palavras de ordem.
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