Vida. “A morte não é o contrário da vida. A vida não tem oposto. O oposto da morte é o nascimento. A vida é eterna.” Essas palavras de Eckhart Tolle, um dos grandes pensadores hodiernos, ressoam como um convite à reflexão em um mundo acelerado, onde o ciclo de nascimento e morte parece ditar o ritmo de nossa existência. Mas o que significa afirmar que a vida é eterna em meio a uma realidade marcada por prazos, perdas e renovações constantes?

Essa perspectiva ecoa o pensamento de Heráclito, o filósofo grego que, há mais de dois milênios, declarou: “Tudo flui, nada permanece.” Para Heráclito, a existência é um rio em constante movimento – nascimentos e mortes são apenas ondulações na superfície, mas o fluxo da vida permanece eterno. Hoje, em um mundo onde a tecnologia nos permite prolongar a existência física e até simular a imortalidade digital, a visão de Tolle e Heráclito ganha nova urgência: será que estamos tão obcecados em evitar a morte que esquecemos de viver a vida em sua essência?

No entanto, essa eternidade da vida não é um conceito fácil de abraçar. Vivemos em uma era de ansiedade, onde o fim – seja de um relacionamento, de um emprego ou do planeta como o conhecemos – parece sempre à espreita. Aqui, vale trazer à tona as palavras de Jean-Paul Sartre: “O homem está condenado a ser livre.” Para o existencialista francês, a vida é um espaço de possibilidades infinitas, mas também de responsabilidade. A morte, nesse sentido, não é o oposto da vida, mas um horizonte que dá contorno à nossa liberdade. Quando Tolle diz que o oposto da morte é o nascimento, ele nos convida a enxergar cada fim como um novo começo, uma ideia que ressoa com a angústia criativa de Sartre.

Por outro lado, a filosofia oriental oferece um contraponto que enriquece essa discussão. Lao Tsé, no Tao Te Ching, escreveu: “O que a lagarta chama de fim do mundo, o mestre chama de borboleta.” Essa metáfora nos lembra que a morte, como a entendemos, é uma ilusão de perspectiva. No taoísmo, a vida é um fluxo contínuo, uma dança de yin e yang onde opostos se complementam, nunca se anulam. A visão de Tolle se alinha a essa sabedoria milenar: a vida não termina, ela se transforma. Em um mundo onde a inteligência artificial e a biotecnologia desafiam os limites do natural, essa ideia ganha uma camada fascinante.

Mas como viver essa eternidade no dia a dia? Aqui, a filosofia prática de Epicuro entra em cena. O pensador grego dizia: “A morte não é nada para nós, pois, enquanto existimos, a morte não está presente; e quando a morte chega, nós não estamos mais.” Epicuro nos ensina a focar no presente, no prazer simples de estar vivo, sem o peso do medo do fim. Combinando isso com Tolle, percebemos que a vida eterna não é uma promessa futura, mas uma realidade agora – na respiração, no olhar, no instante. Em um mundo saturado de notificações, prazos e distrações, essa é uma revolução silenciosa: parar, sentir e reconhecer que a vida não precisa de opostos para ser completa.

Para fechar, vale lembrar Nietzsche, que em Assim Falou Zaratustra proclamou: “Tudo vai e tudo volta; eternamente gira a roda do ser.” O eterno retorno nietzschiano nos convida a amar a vida em sua totalidade, com seus nascimentos e mortes, como uma obra de arte sem fim. Tolle, com sua simplicidade profunda, nos aponta o mesmo caminho: a vida não tem oposto porque ela é tudo o que há. Em um mundo que corre contra o tempo, essa é uma verdade libertadora – e, talvez, o segredo para encontrar paz em meio ao caos. Que possamos, então, viver cada dia como um renascimento, sabendo que a eternidade já está aqui, pulsando em nós.

Ronan Wielewski Botelho, advogado e estudante de física na Universidade Estadual de Londrina

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