Na semana passada perdi um amigo, e Londrina se consternou com uma mãe que perdeu duas crianças, de mãos dadas. Este ensejo me leva a externar algumas considerações pertinentes, embora sem qualquer pretensão de consolar os que mais proximamente sofreram essas perdas. Acredito que as palavras humanas são nitidamente insuficientes para fazê-lo e que só mergulhando profundamente no mistério da vida humana saída do coração de Deus, é que poderemos enxergar, embora singelamente, alguma luz capaz de nos orientar na compreensão dos acontecimentos.
O ser humano vem de Deus e para Ele regressa. Quer vivamos quer morramos o façamos em nome do Senhor, recomenda o apóstolo Paulo. A vida, tal cometa no espaço, surge pela manhã, viceja, e à noite se apaga... como também refere a Palavra Sagrada. Santo Agostinho referirá mais tarde que nosso coração vem de Deus e só descansará quando n’Ele se encontrar.
Qualquer tentativa de compreender a vida em si, sem uma clara referência ao seu criador, é infrutífera. O homem alcança sua felicidade e sua razão de ser – vale dizer sua realização – quando inserido no élan divino de sua origem, fizer deste mundo a sua morada não permanente e se tornar o romeiro a caminho da pátria definitiva. E neste percurso existencial, o que menos conta é com certeza a quantidade dos anos (contagem convencional) que aqui passamos.
O ser humano foi criado por Deus para viver eternamente. Infelizmente o pecado tornou-se a causa principal da morte, como refere o mesmo São Paulo, e em seus dias passados neste mundo, o homem jamais aceitará o ‘‘momento final’’ como natural. E isso embora a morte seja o que de mais certo existe! A saudade do infinito e da eternidade, fará com que todos os gestos humanos apontem pra um mais e melhor, ao longo de seus dias.
O homem sabe que nada neste mundo lhe poderá dar o que seu espírito pede – a realização plena e eterna – mas se embrenhará na floresta de sua existência, desbravando-a e lutando contra as contingências, construindo constantes catedrais com suas torres apontando para o alto. É o seu lugar natural sugando-o, tal como se de gravidade se tratasse.
Deus não quer a morte. Ele é um Deus da vida. Usando uma linguagem antropomórfica, diria que Ele sofre com a morte de seus filhos. Deus não mata. Os homens matam! Matam de várias maneiras e deixam que se estabeleça uma perversa cumplicidade, intrínseca à própria humanidade. É talvez isso que nós tenhamos dificuldade em entender.
Enquanto peregrinos neste mundo, encaramos o desafio de transformá-lo num paraíso ou num pequeno inferno dantesco. Basta termos em mente as cenas horríveis de uma guerra – absurda sempre em sua natureza – e principalmente as imagens de suas principais vítimas (as crianças) e confirmaremos a minha idéia. Quanto choro, quanto desespero e revolta esbanjados desnecessariamente! Quantos tombam anualmente no trânsito nessa guerra não declarada? Nos EUA é a principal causa de morte. Quantos são assassinados nas periferias de nossas cidades em guerras que não respeitam regra alguma! E os que de fome se esvaem e desnutrem no silêncio da indiferença que mata mais do que a espada?
Como este mundo poderia ser diferente! Crianças sorrindo em parques e jardins. Jovens sendo protagonistas de sonhos prenhes de um mundo mais justo e solidário. Foi isso que Deus sonhou! É isso que nos mostra o primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. Infelizmente, a morte ronda nossas casas, assusta-nos e nos priva tragicamente da convivência com nossos entes queridos.
Perder um filho é contra a lógica também intrínseca à própria vida humana e por isso intragável. É um pedaço enorme da vida da gente que se foi com ele. É a própria vida que por vezes perde o sentido. Humanamente falando, é a supremacia do absurdo sobre toda a capacidade de reflexão. Não existem respostas, por mais completas que sejam, que saciem a sede de explicações...
Mas a Palavra de Deus, iluminando o mistério da vida, aponta pistas interessantes. O filho é de Deus; não nos pertence. É um Dom do Senhor. Abraão, embora consternado, subiu à montanha para oferecer a Deus seu único herdeiro. E o próprio Deus entregou à morte seu filho único para nossa salvação. Os filhos no Antigo Testamento eram consagrados ao Senhor – Sua propriedade. Ter uma grande prole era sinal inequívoco de bênção divina.
E ainda ao longo da história, não foram poucas as famílias que se alegraram quando seus filhos se consagraram a Deus para sempre, numa autêntica morte para o mundo. A certeza de um reencontro no seio de Abraão, sempre foi a verdadeira sabedoria, advinda de uma fé esclarecida no Senhor da Vida.
Termino com São Paulo: ‘‘Ó morte! Onde está agora a tua vitória?’’ Se é grande a dor da separação, maior será a alegria do reencontro. Se bela foi esta vida, incomparavelmente mais perfeita será a nova vida para nós reservada. É esta a fé que faz a diferença em momentos como os que algumas famílias estão vivendo ou já viveram.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco da Paróquia Imaculada Conceição em Londrina

mockup