Será que a Filosofia ainda serve para algo em pleno Século XXI? Por que algumas pessoas ainda se preocupam com esta tal Filosofia? Colocá-la nos currículos escolares, para quê? E, se não bastasse tudo isso, ainda tem algumas pessoas, inclusive jovens, que pensam em estudar, durante longos anos, Filosofia. ''Meu filho'', dirão certos pais, ''o que tu vais fazer com um curso destes? Ficar por aí 'filosofando' isto não paga nossas contas. Vais trabalhar de quê, 'Filósofo'?'' Ninguém está nem aí para a Filosofia. Como diz o ditado, ''com Filosofia ou sem Filosofia, a vida continua a mesma ...''
Para Maria L. S. Teles, em sua obra Filosofia para crianças e adolescentes, ''A Filosofia seria antes de tudo ensinar a perguntar o por quê? O início do conhecimento é o perguntar.'' Se isto é verdade, e não parece ser de outra forma, e se juntarmos a isso a busca constante por respostas que se colocam a respeito da existência humana, outro dos objetos de estudo da Filosofia, então talvez as respostas para as nossas perguntas iniciais encontre uma certa luz.
A Filosofia não apenas tem um para quê, mas do nunca é necessária. Se olharmos à nossa volta e conseguirmos verificar o quanto estamos impregnados de falsas verdades construídas por mecanismos ideológicos, calçados em interesses puramente mercantis, difundidos principalmente pela mídia, então a Filosofia talvez tenha material de trabalho e nos ajude a, pelo menos, nos questionarmos sobre o porquê de uma realidade que é, no mínimo, contraditória.
Entre tantas questões que nos cercam no cotidiano, onde está o fundamento para a agenda de discussões colocada para nós como a única a ser seguida? Por que nos preocupamos tanto com certas coisas em detrimento de outras que, em uma análise rápida, seriam, pelo menos, mais necessárias e prementes? Se a sociedade contemporânea não estivesse impregnada de imediatismos e pelo meramente palpável, talvez a busca pelos porquês pudesse estar presente na agenda de todos nós.
Estamos envoltos em uma nebulosa de certezas prontas, onde até mesmo os nossos valores mais fundamentais já estão predefinidos e as nossas preocupações já agendadas, eis a chave para a Filosofia se sustentar enquanto uma das ferramentas capazes de, já na sala de aula de nossas crianças, permitir, às novas gerações, a construção de uma personalidade própria e, talvez, de uma sociedade um pouco mais humanizada.
Neste sentido, compreender que a Filosofia, principalmente na sala de aula, e nas nossas leituras, não é ''perda de tempo'' mas é, antes de mais nada, uma forma de acesso às ferramentas que nos permitem um outro olhar para a sociedade, é outra questão que devemos nos colocar.
O filósofo não é um privilegiado ou o único capaz de enxergar o que está por trás das coisas, ele é apenas mais um daqueles que se permitem duvidar. A dúvida, não aquela do meramente duvidar, mas da busca por respostas que tentam abarcar o maior número possível de ângulos de um problema, eis uma das constantes da Filosofia.
Pensar a ética, uma necessidade cada vez mais do que urgente, é outro objeto de pesquisas da Filosofia. Onde estão as discussões éticas em tempos de uso de tecnologias quase sem a preocupação com as suas consequências? Das poucas áreas do conhecimento que se dedicam a tais discussões, uma das que estão mais envolvidas é a Filosofia e suas contribuições são, pelo menos, instigantes.
Nisso tudo, o que fazer com a Filosofia? Experimentar um contato maior com ela talvez seja uma primeira possibilidade, permitir e incentivar sua presença nos currículos escolares, uma constante, e repensar a máxima título desta pequena coluna jornalística, uma necessidade.
VILMAR MALACARNE é professor de Filosofia na Unioeste em Cascavel

mockup