A viagem dos comediantes
Aos jovens procuradores da República geralmente atuantes, mesmo em assuntos menores, para satisfação dos brasileiros talvez não falte trabalho graúdo, nestes dias finais do milênio e, pelo tempo que for necessário, no próximo, para uma limpeza em áreas até agora impenetráveis da administração pública do país, como, por exemplo, o Banco Central.
Desde seu derradeiro mandato de senador e, depois, na Presidência da República, Itamar Franco, atual governador de Minas, intrigado pelo modo como o BC resolvia certas questões, tentou romper a couraça de sigilo e de mistérios que as protegia, mas nada conseguiu.
Alguns episódios escabrosos, ali ocorridos mais tarde, vieram a público numa CPI sobre os bancos. Como, entre outros, o caso do empréstimo de R$ 1,6 bilhão, tecnicamente sem pé nem cabeça, mas concedido pelo BC aos tamboretes bancários Marka e FonteCindam. O País ficou no prejuízo e teve de contentar-se com a demissão só com a demissão de alguns envolvidos.
Agora, porém, surgem novidades no BC. Especialistas, inclusive parlamentares e ex-autoridades financeiras que examinaram o recente relatório desse banco, dizem haver descoberto nele vestígios da existência de duas contas, e não apenas de uma, sobre suas operações.
Todas essas pessoas destacam, a propósito, o fato de que o presidente do BC, Armínio Fraga, estabeleceu, no relatório revelador, a separação nítida entre as contas de sua gestão e as de seus antecessores. Como se Fraga procurasse preservar, com razão, a própria imagem de envolvimento nas operações anteriores da caixa preta que lhe foi entregue pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O certo é que o assunto Banco Central, diante de tais circunstâncias, dificilmente deixará de atrair a atenção dos procuradores. Tanto mais que o BC é setor fundamental para o futuro do País, e o que ali acontece afeta, dramaticamente, o cotidiano da vida dos brasileiros.
Evidentemente, quaisquer irregularidades que se apurem e sejam punidas ajudam a mudar para melhor a face do País, a começar pelo tipo de jogo de poder e de influências que hoje se trava no complexo político-econômico nacional, visando à sucessão de FHC.
Caso se concretizem, as investigações julgadas inevitáveis, indispensáveis e inadiáveis redefinirão o quadro sucessório e liquidarão muitos projetos pessoais entre os que desejavam brilhar no cenário político e os que pensavam em deixar o mais discretamente possível esse palco, em 2002, para gozar as delícias do dolce far niente.
Mas, por segurança, alguns desses comediantes das finanças e da política só poderão fazê-lo na Irlanda, que, segundo dizem (o interessado precisa confirmar), não tem tratado de extradição firmado com o Brasil.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





