A voz feminina ainda fala baixo na política brasileira. As mulheres representam 22% das Câmaras Municipais. Em Londrina, a porcentagem de vereadoras eleitas em 2004 ficou abaixo da média nacional - apenas 11%. Nunca tivemos uma mulher no comando da cidade, afirmação que também vale para a capital paranaense. Em todo o Estado, apenas 8,5% dos candidatos às prefeituras municipais são do sexo feminino.
Lançada no último dia 27, a campanha nacional ''Mais Mulheres no Poder'' quer reverter este quadro. Nem que para isso seja necessário forçar legendas políticas a ampliar a participação feminina sob ameaça de punições. À FOLHA, a subsecretária da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (órgão subordinado à Presidência da República), Sônia Malheiros, defende as cotas para candidatos por gênero e critica a conduta machista dos partidos.

Adianta fazer campanha se não houver interesse? Afinal, o que falta: vontade ou oportunidade?
Há vários fatores que explicam essa baixa participação. O primeiro é a questão cultural. Ainda existe uma visão conservadora muito forte de que o espaço da política não é para as mulheres, que o espaço delas é o da família, do privado. A sobrecarga no desempenho das tarefas domésticas também interfere na disponibilidade em assumir cargos de poder e direção. Outra questão importante é que os partidos políticos colocam investimentos muito pequenos para as mulheres candidatas. O orçamento e a estrutura das siglas normalmente são dirigidos a fortalecer candidaturas masculinas.

Os eleitores também oferecem obstáculo à participação feminina?
A disponibilidade de votar em mulheres e a própria participação delas nas disputas vêm crescendo. Temos exemplos de capitais e grandes cidades em que existe importante número de candidatas à prefeitura. Um exemplo é Porto Alegre, onde há quatro mulheres e quatro homens disputando o cargo. Em Santos, são seis mulheres. Existe um momento de mudança do quadro, mas há muito o que fazer. Não há democracia sem mulheres participando em condições de igualdade com os homens.

Se a questão é igualdade, não podemos pensar só na participação por sexo...
É fundamental que tenhamos mais mulheres, mais negros, que a diversidade do povo brasileiro esteja impressa nos espaços de poder e decisão para que a democracia se concretize. Não se pode pensar em uma democracia efetiva se metade da população está subrepresentada. Somos mais de 51% da população, mais de 50% do número de eleitores, e mesmo assim nossa representação nas Câmaras de Vereadores, Prefeituras e Assembléias Legislativas ainda é muito pequena.

A senhora acredita que a destinação às mulheres de 30% das vagas para candidatos ao Legislativo em cada partido - expressa desde 1997 na Lei Eleitoral - seja realmente a melhor solução?
Esta lei é importante, mas hoje não existe nenhuma sanção ao partido que não a cumpra. E nenhum dos 27 partidos brasileiros respeitou as cotas nestas eleições. Precisamos ter alguma sanção, a exemplo de retirar recursos do fundo partidário das legendas ou impedir que as candidaturas sejam efetivadas no Tribunal Superior Eleitoral. Senão, a cota passa a ser bonita no papel, mas ineficiente na prática.

Este atalho forçado para a participação feminina não pode produzir maus frutos, como levar pessoas despreparadas ao poder só para preencher a cota?
Os partidos, em seu cotidiano, buscam candidaturas, investem em lideranças. Queremos que de alguma forma eles passem a olhar para as mulheres e investirem nelas também. Você tem hoje no discurso um apoio à participação feminina, mas geralmente não passa disso. Na prática, o apoio não é para elas.

É possível que já nas próximas eleições, em 2010, tenhamos uma mulher com chances reais de chegar à presidência do Brasil?
Isso é uma possibilidade concreta. Você tem experiências hoje na América Latina - no Chile e na Argentina - e algumas também na Europa. As mulheres estão despontando para disputar os principais cargos de poder no mundo. Isso é irreversível.

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