A vez da sala de aula
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quarta-feira, 12 de março de 2003
Edimarães Silvestre 
Quando alguém constrói uma casa, os alicerces têm que necessariamente vir antes da pintura. Na educação também existe uma sequência natural. No começo, havia que construir prédios e contratar professores. Nisso estivemos até recentemente. Priorizou-se o aumento de matrículas em detrimento do resto que faltava. Vem então a fase de administrar, consertar e suprir tudo que é necessário para funcionar como escola. Terminada a faxina, resta-nos uma dura constatação: tudo o que foi feito ainda é pouco. Não fomos capazes de produzir um eficiente sistema educativo. A grande verdade é que começamos tarde, pois nas décadas de 70 e 80 ainda haviam muitos alunos fora da escola.
Na década de 90 ainda havia que expandir, mas foi um período também de consertar a máquina que operava e coordenava os sistemas escolares: livros e merenda a tempo e a hora, tirar a política dos orçamentos, uns trocados para os diretores liderarem com os gastos do cotidiano e a modernização de currículos. O Fundef veio para dar uma injeção nas veias das escolas mais pobres. E os instrumentos de navegação: as estatísticas e avaliações. Os resultados foram bons. Prosseguimos com a expansão da matrícula, caiu a deserção, aumentaram as graduações em todos os níveis. Crescemos bastante, e, para a surpresa de muitos, não houve uma queda adicional na qualidade. Ou seja, os consertos externos compensaram as dificuldades de lidar com os alunos de nível social cada vez mais baixo.
O lado bom foi a melhora da gestão do sistema e a expansão sem deterioração dos resultados. O lado mau é que a qualidade, embora constante, ainda é deplorável. Para melhorá-la, é necessário criar programas especialmente voltados para apoiar as escolas mais pobres. Nessa transição entre séculos e presidentes, vivemos o mesmo problema. Expandimos e investimos na gestão dos sistemas educativos. Com isso, demos um salto que se atrasava por mais de meio século. Mas na qualidade a única proeza foi não deixar piorar. Só uma conclusão: a prioridade agora deve ser a sala de aula, pois é ali que a educação é produzida.
Pesquisas do Banco Mundial mostram que a jornada escolar é curta e uma baixa proporção do tempo é gasta em tarefas propriamente escolares. Há intervalos sem professor em sala de aula e professores que cuidam de um ou outro aluno deixando os demais sem o que fazer. Erro grave é o excessivo tempo que o professor gasta escrevendo no quadro, os alunos copiando e respondendo a perguntas desinteressantes 25% a 47% do tempo. Os professores passam dever de casa em um volume muito pequeno. Em alguns estados os alunos levam tempo demais cortando e colando, em vez de exercitar leituras em livros apropriados para idade. De resto, boa parte das leituras não é feita nos livros comprados para tal. Nas escolas do Nordeste a maioria das crianças da 5 série não consegue ler nem fazer cálculos simples. Ensinamos o aluno a dar asas à imaginação, mas sem entender o que está escrito.
Reformamos fora da escola, mas isso não foi o bastante. Agora é a hora de entrar e consertar a sala de aula, de pensar na pedagogia, no como ensinar. Mas como chegar até a sala de aula? Em muitas escolas (sobretudo nas municipais) as técnicas são frágeis. E o que dizer quando a preocupação do município ainda é fazer estradas e não a educação? Promover melhoria é, seguramente, melhorar a formação dos professores e suas carreiras. Aí estão os grandes desafios para o início deste novo século e deste novo governo. Temos um longo caminho a percorrer. A boa notícia é que a sociedade brasileira descobriu a importância da educação e está aprendendo a demandar mais qualidade.
EDIMARÃES SILVESTRE é mestre em Educação e professor da rede pública estadual em São Jerônimo da Serra


