Quando alguém constrói uma casa, os alicerces têm que necessariamente vir antes da pintura. Na educação também existe uma sequência natural. No começo, havia que construir prédios e contratar professores. Nisso estivemos até recentemente. Priorizou-se o aumento de matrículas em detrimento do resto que faltava. Vem então a fase de administrar, consertar e suprir tudo que é necessário para funcionar como escola. Terminada a faxina, resta-nos uma dura constatação: tudo o que foi feito ainda é pouco. Não fomos capazes de produzir um eficiente sistema educativo. A grande verdade é que começamos tarde, pois nas décadas de 70 e 80 ainda haviam muitos alunos fora da escola.
Na década de 90 ainda havia que expandir, mas foi um período também de consertar a máquina que operava e coordenava os sistemas escolares: livros e merenda a tempo e a hora, tirar a política dos orçamentos, uns trocados para os diretores liderarem com os gastos do cotidiano e a modernização de currículos. O Fundef veio para dar uma injeção nas veias das escolas mais pobres. E os instrumentos de navegação: as estatísticas e avaliações. Os resultados foram bons. Prosseguimos com a expansão da matrícula, caiu a deserção, aumentaram as graduações em todos os níveis. Crescemos bastante, e, para a surpresa de muitos, não houve uma queda adicional na qualidade. Ou seja, os consertos externos compensaram as dificuldades de lidar com os alunos de nível social cada vez mais baixo.
O lado bom foi a melhora da gestão do sistema e a expansão sem deterioração dos resultados. O lado mau é que a qualidade, embora constante, ainda é deplorável. Para melhorá-la, é necessário criar programas especialmente voltados para apoiar as escolas mais pobres. Nessa transição entre séculos e presidentes, vivemos o mesmo problema. Expandimos e investimos na gestão dos sistemas educativos. Com isso, demos um salto que se atrasava por mais de meio século. Mas na qualidade a única proeza foi não deixar piorar. Só uma conclusão: a prioridade agora deve ser a sala de aula, pois é ali que a educação é produzida.
Pesquisas do Banco Mundial mostram que a jornada escolar é curta e uma baixa proporção do tempo é gasta em tarefas propriamente escolares. Há intervalos sem professor em sala de aula e professores que cuidam de um ou outro aluno deixando os demais sem o que fazer. Erro grave é o excessivo tempo que o professor gasta escrevendo no quadro, os alunos copiando e respondendo a perguntas desinteressantes 25% a 47% do tempo. Os professores passam dever de casa em um volume muito pequeno. Em alguns estados os alunos levam tempo demais cortando e colando, em vez de exercitar leituras em livros apropriados para idade. De resto, boa parte das leituras não é feita nos livros comprados para tal. Nas escolas do Nordeste a maioria das crianças da 5 série não consegue ler nem fazer cálculos simples. Ensinamos o aluno a dar asas à imaginação, mas sem entender o que está escrito.
Reformamos fora da escola, mas isso não foi o bastante. Agora é a hora de entrar e consertar a sala de aula, de pensar na pedagogia, no como ensinar. Mas como chegar até a sala de aula? Em muitas escolas (sobretudo nas municipais) as técnicas são frágeis. E o que dizer quando a preocupação do município ainda é fazer estradas e não a educação? Promover melhoria é, seguramente, melhorar a formação dos professores e suas carreiras. Aí estão os grandes desafios para o início deste novo século e deste novo governo. Temos um longo caminho a percorrer. A boa notícia é que a sociedade brasileira descobriu a importância da educação e está aprendendo a demandar mais qualidade.
EDIMARÃES SILVESTRE é mestre em Educação e professor da rede pública estadual em São Jerônimo da Serra

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