A vez da empresa cidadã
A vez da empresa cidadã
Miguel Ignatios
Aos poucos, vem crescendo entre as empresas brasileiras a vocação para a atividade social. É cada vez maior o número das que se interessam pela valorização comunitária. E o curioso é que isso começou a se desenvolver em consequência do imenso vazio deixado após a falência do Estado patrão, provedor e paternalista. A herança deixada pelo capitalismo estatal modelo no qual a poupança pública, constituída pelos impostos arrecadados nos três níveis de administração, é usada para financiar grandes projetos foi desastrosa em termos sociais. O Estado onipresente e todo-poderoso simplesmente abandonou seu papel, deixando para a sociedade civil a tarefa de administrar uma enorme dívida social.
Pressionado uma vez mais pela iminência da modernidade, o Estado vendeu suas empresas públicas, mais conhecidas como estatais, que se desenvolveram à custa de reservas de mercado e de monopólios, e, apressadamente, assumiu seu novo papel de controlador da moeda e das finanças públicas e de gerente das fontes de financiamento. Atrás de si, deixou o entulho da súbita implosão desse modelo: a administração de um sistema de seguridade social injusto e falido, para os trabalhadores da iniciativa privada; e nababesco, para uma pequena casta de servidores, que, nas palavras do ex-deputado federal Roberto Campos, escondem-se atrás de privilégios adquiridos, fazendo-os passar por direitos adquiridos.
Sensíveis ao desmantelamento brusco e sem qualquer critério do modelo do Estado mau provedor de tudo, os empresários brasileiros deram sua resposta, abrindo mão de parte de seus lucros para investi-los no bem-estar da comunidade. E esses investimentos são direcionados justamente para as áreas tradicionalmente reservadas à atividade estatal: educação, saúde, segurança, habitação e lazer, as quais também foram deixadas em segundo plano durante muito tempo.
Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) na Região Sudeste entre 1.752 empresas, num universo de 445 mil, constatou que 67% delas realizam algum tipo de ação social. A ADVB consultou 1.350 empresas para verificar qual o grau de envolvimento delas com ações comunitárias e obteve os seguintes dados: ao longo deste ano, serão investidos em projetos sociais R$ 132 milhões, os quais deverão beneficiar cerca de 32 milhões de pessoas carentes.
A conclusão a se tirar disso é que o empresariado cansou de esperar pela ação do Estado e resolveu aliar-se à sociedade, às ONGs e à Igreja para resolver as carências sociais que mais afetam a comunidade. É óbvio que o papel do empresariado na solução das questões sociais é emergencial e supletivo, já que a ação principal deve continuar a ser cobrada do Estado.
É preciso destacar também que o interesse do empresariado por projetos sociais tem crescido ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, apesar de ser este o período no qual as empresas foram forçadas a conviver com enormes dificuldades, dentre outras, elevação da carga tributária, juros e financiamentos proibitivos e necessidade de investimentos em novas tecnologias.
Ao resolver investir em projetos sociais, o empresário brasileiro abre espaço para a empresa cidadã, que, com certeza, terá um papel cada vez mais importante durante o século 21. Essa é uma importante mudança na mentalidade empresarial. O lucro a qualquer preço está aos poucos sendo substituído pelo lucro com responsabilidade social. Isso já é um consolo e uma esperança num País em que o Estado parece ter vocação menor para a cidadania.
Para tornar públicas as iniciativas de empresas que investem em projetos sociais e comunitários, a ADVB, em parceria com a Rádio Eldorado (SP), GNT, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, Gazeta Mercantil, Instituto da Cidadania, e a World Business Academy, instituiu, em 1999, o Top Social, que este ano premiará 33 empresas e entidades.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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