A versão dos descendentes
O agricultor Domingos Gonçalves dos Santos tem 71 anos, é analfabeto e nasceu nas terras da Invernada Paiol de Telha. Lá ele cresceu e conheceu Anália Ferreira, com quem casou e teve seis filhos e 52 netos. Estão juntos há 56 anos e são uma referência histórica sobre o local.
Santos conta, sem ter muita precisão nas datas, que um dia, há quase 30 anos, quando voltou do trabalho, em vez da casa encontrou cinzas. A sua residência e outras benfeitorias haviam sido queimadas por pessoas interessadas em expulsar os negros das terras. ''Estava trabalhando no Pinhão e quando voltei encontrei tudo queimado, casa, chiqueiro, máquinas. Tive que sair de lá só com a roupa do corpo.'' Ele relata casos de pessoas algemadas que apanharam ou sofreram outras formas de tortura, como afogamentos em lagos e rios, que só cessavam quando desistiam das terras. Os animais de criação, segundo ele, eram envenenados.
Para o agricultor, o mandante dos casos de violência seria o delegado Oscar Pacheco, o mesmo que ficou com os direitos de posse e depois os repassou para a cooperativa. Naquela época, a agricultura era para consumo próprio, bem como a criação de animais. Não havia comércio fora da comunidade com o produto ali plantado e colhido.
''Não tinha conversa, ou saía da terra ou apanhava'', lembra Santos. Ele saiu e foi para a cidade de Guarapuava, onde trabalhou como peão de obra e fazendo bicos. Há cinco anos, incentivado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que resgatou a história da comunidade, um grupo de descendentes dos escravos da Paiol de Telha decidiu voltar ao local e lá acampou, em frente à propriedade, nas margens da estrada, por quase um ano e meio. Domingos, Anália e alguns de seus filhos estavam entre eles.
''Foi um período difícil embaixo da lona preta'', lembra Maria Francisca Nunes, 47 anos, nora de Domingos e que perdeu o marido recentemente.
Depois desta ação, o Incra decidiu reassentar 62 famílias em um local próximo, mas bem menor, de 1.050 hectares. ''É um local inadequado para a agricultura e um assentamento que também não respeita a cultura da comunidade negra'', afirma Dionísio Vandresen, coordenador da CPT do Paraná. ''Além disso, são quase 300 famílias de descendentes e muitas delas estão morando em favelas da região'', argumenta Vandresen.
Ele questiona, por exemplo, o fato de a cooperativa ter requerido usucapião se estava comprando as terras. Além disso, afirma que o negócio nunca teria sido concluído porque não foi pago. ''É melhor devolverem a terra para os negros pois, do contrário, esta luta nunca vai acabar'', diz o coordenador da CPT.





