A verdadeira luta de classes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de setembro de 2002
Nivaldo Cordeiro 
Em artigo anterior sugeri que a verdadeira luta de classes acontece entre aqueles que pagam impostos e aqueles que deles usufruem. Essa verdade no Brasil de hoje nunca foi tão evidente. Os usufrutuários dos impostos estão inviabilizando o País, numa ação parasitária sem tamanho. A permanecer a atual inércia, o Brasil poderá viver uma grande crise.
Fiquei me perguntando o por quê de uma situação dessas permanecer, contrariando os interesses gerais. Em primeiro lugar, permanece porque a ordenamento jurídico não permite alternativa. Em segundo lugar, porque os que ganham têm o poder de obstar qualquer tentativa de mudança nos direitos adquiridos dentro do Parlamento. Em terceiro lugar, porque o Poder Judiciário sempre se comporta de forma corporativista e medidas racionalizadoras cortariam também os seus privilégios. Em quarto, porque os benefícios gerais não são fortes o bastante para neutralizarem os benefícios particularistas de grupos de pressão. Em quinto, porque aqueles que estão fora da ''boca livre'' têm esperança de entrar, daí aceitarem as promessas mirabolantes dos políticos, que prometem sempre mais benefícios, em prejuízo dos pagadores de impostos.
Os inocentes úteis sempre esperam saúde, educação, moradia, dinheiro, comida, transporte, tudo grátis, como se isso fosse possível, como se a humanidade tivesse superado a condição de escassez. Infelizmente, há sempre um pagador em última instância. Não há ninguém que advogue, seja pelos contribuintes em geral, seja pela economia de mercado.
O que Gramsci, Lênin, Marx e outros teóricos afirmaram sobre o Estado, de que ele é instrumento da luta de classes, tem um quê de razão, mas não como propuseram. Definitivamente, o Estado não é instrumento da burguesia contra o proletariado. Isso é falso e sempre foi falso. O Estado sempre foi um instrumento da aristocracia contra as demais classes sociais. Pensando errado fizeram a ideologia que lhes permitiram - aos comunistas e socialistas -tornar-se a nova aristocracia dos tempos contemporâneos. São os novos parasitas sociais.
No Brasil de hoje a ânsia tributarista ultrapassa qualquer coisa do que se viu nos estados imperiais da Antiguidade. A tunga é feita com grande desfaçatez, com absoluta falta de respeito para com aqueles que trabalham. É preciso retomar o discurso revolucionário dos liberais clássicos. A liberdade só pode existir se, e somente se, o produto do trabalho for retido nas mãos de quem produziu. Do contrário, é a tirania, a restauração da escravidão.
A crer nas tendências informadas pelas pesquisas eleitorais, a situação de esbulho e escravidão tributária será agravada com o novo governo a ser eleito. É chegado o tempo de resistência contra o abuso dos cobradores de impostos.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo


