A VERDADEIRA HISTÓRIA DO NATAL
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de dezembro de 2002
Agência Estado<br> Por Líliam Primi 
São Paulo - Nos tempos modernos, o Natal praticamente tornou-se uma sucessão infinita e alucinante de imagens, como se estivéssemos a bordo de um trem bala que gira incessantemente ao redor do planeta. Ou melhor, parando apenas para comprar, de preferência em grandes e sofisticados shoppings. É a quase irresistível força da propaganda, imensamente potencializada pela fé.
No entanto, a força que impulsiona e mantém o trem nos trilhos é bem mais antiga que Jesus, o personagem central da festa há mais de 2 mil anos. Os pagãos da era pré-cristã também comemoravam a renovação e rendiam graças à divindade que, acreditavam, comandava os processos de transformação.
Ao espanar a poeira dos cantos esquecidos da casa, remexer em velhos baús em busca daquele enfeite da vovó que vai combinar direitinho com os duendinhos recém-chegados da loja, ou mesmo montar um presépio, esse costume tão cristão, as pessoas repetem ações que já fazem parte da memória coletiva da humanidade. Isso vale também para a mesa farta da ceia e a doação de bens e alimentos aos menos favorecidos.
Antes de Cristo, o deus regente de dezembro era Saturno, cultuado pelos romanos como aquele que anuncia o sol invencível e comanda a renovação da vida. E antes dele, na era primitiva, a vontade de comemorar era insuflada pela espera do calor do sol e pela abundância que sempre o acompanha. Uma espera dramática para os habitantes da região do planeta onde os invernos são rigorosos.
De acordo com o ancestral calendário das estações, que determinava a passagem do tempo e as datas das festas de nossos ancestrais, dezembro é o mês do solstício de inverno nestas regiões, mais ao Norte. Ele começa no dia 21, quando se registra a noite mais longa do ano. No dia 25, é primeira vez no ano em que o sol vence a noite. A partir disso, os dias ficam cada vez mais longos e mais quentes até o solstício de verão.
Nas festas primitivas, as pessoas se entregavam aos prazeres da comida e da bebida, às vezes por mais de um mês. Na Roma antiga, além da festa do solstício, parte do período hoje definido como o Advento na liturgia católica (quatro semanas antes do dia 25), se comemorava uma das mais importantes festas do ano, as Saturnais.
De 17 a 24 de dezembro, em Roma, era proibido fazer a guerra ou aplicar castigos. Havia comida e diversão em abundância, todas as crianças ganhavam presentes e não precisavam ir à escola, que permanecia fechada. O clima festivo se estendia até janeiro, quando Janus - o deus grego-romano de duas caras - tomava o comando e começavam então as adivinhações para o ano vindouro, além da continuidade de tudo o que já se fazia a partir de meados de dezembro.
Os teutões (germanos) e escandinavos também comemoravam o solstício de inverno e, na mesma época do ano, os judeus tinham a Festa das Luzes. No Egito, também havia festa do solstício, que no calendário ocidental cai em 6 de janeiro. Os persas, como os cristãos, festejavam o aniversário de nascimento de uma divindade - Mitras, o ''O Deus da Luz'' - numa festa chamada ''Dies Natalis invicti Solis'' (o dia natalício do sol invicto). ''Nessa época não havia um calendário só no mundo. Tínhamos um no Ocidente e outro no Oriente. Também havia muitas influências religiosas regionais. Na religião, Mitras é uma entidade de renovação'', diz Mário Sérgio Cortella, filósofo e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP. No Egito, a entidade ligada à luz é Atys, também saudada no solstício de inverno.
Em toda a Europa, estas festas permitiam em alguns lugares uma divertida - e intolerável para alguns - mudança de papéis. Escravos sentavam-se à mesa e eram servidos por seus senhores, soldados reuniam-se nos quartéis para a eleição de um deles como rei, que seria cegamente obedecido por todos, e assim por diante.


