A verdade única em cada um
Walmor Macarini
A verdade fundamental não se altera só porque alguém pensa diferente. Essa verdade única está dentro de cada ser, importa descobri-la. Não é difícil, se houver propósito. Alguns a descobrem mais cedo, outros demoram, porque esperam que ela se manifeste de fora para dentro. Buscam-na onde nunca irão encontrá-la, e assim atravessam tempo precioso na dúvida e no conflito.
Cada qual imagina a verdade a partir dos ensinamentos de sua corporação religiosa, e contenta-se com o que lhe chega do exterior para dentro de si. Mas a verdade latente em seu interior choca-se com o que lhe chega de fora, e esse estado de conflito gera-lhe angústia. Assim, mais e mais ele carece de retornar ao mesmo local, em busca de respostas que ninguém tem para lhe dar, eis que elas estão dentro de si mesmo.
Linguagem velha ou nova, isto não importa, porque se alguém não compreendeu a velha também não compreenderá a nova. Quando, há dois mil anos, alguém chegou pregando boas novas, as pessoas também não compreenderam aquela linguagem, que era nova a seu tempo, embora, como agora, a essência da verdade nunca tenha se alterado.
Dentro dessa linha semântica, certas correntes dizem que ‘‘o diabo está solto no mundo’’, outras dizem que a propagação de vibrações negativas, em forma de pensamentos, palavras e ações, cristalizaram-se no inconsciente coletivo. O mesmo sentido. Com a diferença de que aquelas entendem um diabo verdadeiro, na forma de um ser medonho, e estas descobriram que aquele ser nada mais é que nossos egos. Ambos tenebrosos.
Deus, ou Supraconsciência, ou Mente Divina, expressam a mesma coisa. Fé é apenas uma, importa saber o que ela é e onde reside o seu poder. Alguns têm fé nas divindades, ou numa determinada divindade, e crêem que elas, por si sós, tudo possam fazer ao suplicante, mesmo que ele só faça suplicar, imobilizado em sua atitude adoradora e contemplativa. Outros, depositam fé no próprio poder interior, reforçados na verdade de que são centelha divina.
A estes últimos não é preciso atribuir um rótulo, eis que não pertencem a um partido religioso nem a determinada corrente, porque eles apenas são. Não se denominam nada. Não serão estes, com toda certeza, os adoradores de bolas de cristal, ou os que se miram nas luminiscências (ou supostas sombras) estelares, ou os que decoram textos e os repetem à exaustão, sem os compreender, ou os que esperam que alguém venha responder às suas dúvidas e questionamentos, ou aqueles que aguardam que desponte de entre as nuvens um salvador.
Os cegos descerão cegos às tumbas, cegos ressurgirão e cegos retornarão se não despertarem para a verdade de que têm o poder da visão e de caminhar sem a necessidade de guias... Porque nós somos o caminhante e nosso próprio guia, somos o discípulo e nosso próprio mestre. E o poder de Deus? – perguntarão. Ele está em nós, e como este fortalecimento tudo podemos.
Não devemos é ficar vendo diabos em toda parte, como querem alguns. Os que o cultuam muito e tanto o citam, o têm próximo. Valem-se dele para suas defesas doutrinárias, e sempre o estão levando a tiracolo. Usam-no como valioso referencial, e ele deve sentir-se muito valorizado. Dão-lhe consistência, e ele se robustece, passando a operar a serviço dos que tanto o reconhecem e tanto poder lhe atribuem.
Forças do mal existem, sim, mas dizer que é culpa do diabo é fugir da responsabilidade, porque elas são a resultante de nossos egos. Nós criamos essas forças, e as temos soltado pelo mundo... Melhor é não reconhecê-las, para que não se recriem e não se robusteçam. Os nossos egos são capazes, sim, de coisas diabólicas!
Na antiguidade os denominados daimons não eram considerados como agentes do mal, mas apenas como espíritos menos evoluídos, que tinham a incumbência de intermediar a comunicação das divindades com os homens, já que elas não conseguiam estabelecer diretamente essa sintonia. Escritos da época – certamente incorporados a livros que hoje compõem o texto bíblico – foram convertendo os daimons em malfeitores (o termo demônio deriva de daimon). As Igrejas seguiram esses passos. Melhor do que exaltar as virtudes do paraíso era alertar sobre os horrores do inferno e seus diabos... Um forte argumento para manter atrelados os fiéis, através da atemorização, como ainda em nossos dias.
O homem é muito maior do que se supõe, ou do que supõem aqueles que querem mantê-lo cativo. Não o homem no sentido de ser terreno, imerso na fisicalidade, mas o homem ser divino que habita o corpo carnal. Crer-se poderoso na condição física é ignorância, mas não se crer divino em seu substrato, este é o pecado, palavra que na tradução original quer dizer encobrimento, ocultação da luz. Este é o sentido da parábola. Ocultação significa cegueira, em que hoje está imersa a maior parte da humanidade, não obstante haja chegado a hora do despertamento, ou – como está escrito – do nascer de novo.
As imperfeições da carne são consequências dessa ocultação da luz. Ao mergulhar na tridimensionalidade terrena o homem foi perdendo a memória de sua voluntária ancoragem neste planeta e da missão que o trouxe aqui, e transformou-se em diabo de si próprio.
Elevar-se dessa condição será tão veloz como o estalar dos dedos: bastará ao homem acreditar no poder divino que habita dentro dele.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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