A verdade sobre o PPA - Padre Roque
A verdade sobre o PPA
Padre Roque
O ufanismo que começa a invadir a Nação com a proximidade do novo milênio contagiou os homens do Planalto Central. Parece até que o delírio desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek está ressurgindo, com toda força, do vasto cemitério de projetos utópicos que cerca Brasília. Não há outro modo de se traduzir a aura fantasiosa que cercou o anúncio do PPA (Plano Plurianual de Investimentos) aos brasileiros, no final de agosto.
Dizemos isso porque, embora não tenhamos a antevisão dos gênios, não é preciso muito esforço para perceber o quanto este novo projeto do presidente Fernando Henrique e sua equipe é impraticável, porque absolutamente distante da realidade. Não que seja impossível investir mais de R$ 1 trilhão nos próximos quatro anos no setor produtivo e gerar 8,5 milhões de empregos. O problema é que a trajetória pregressa deste governo não o qualifica como o motor deste extraordinário desenvolvimento que foi projetado nas pranchetas de Pedro Malan & Companhia. Muito pelo contrário.
De início, importa lembrar que o crescimento econômico é um processo e, como tal, necessariamente condicionado a uma conjuntura. Jamais pode, como pretende o governo, ser estabelecido por medida provisória. Afirma o governo, por exemplo, que parte deste boom de crescimento será proporcionado pelo desempenho das exportações. Na prática, contudo, o que há de concreto é um déficit de US$ 700 milhões na balança comercial só neste ano.
O governo afirma que ampliará significativamente os investimentos sociais, mas a frieza dos números nos aponta resultados diferentes. De acordo com dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), dos R$ 412,8 milhões que o governo poderia gastar com os programas federais de habitação e saneamento básico, só usou R$ 3,6 milhões 0,87% do total. Nas áreas de agricultura, minas e energia, meio ambiente e política fundiária, o quadro não é muito melhor. O governo investiu R$ 1,9 bilhão até agosto deste ano. Um número expressivo mas, pasmem, rigorosamente igual à quantia consumida pela União em 1998, só com passagens aéreas, diárias de viagens, limpeza, xerox e telefonia da máquina pública.
Não bastassem estes números, suficientes para desqualificar a carta de boas intenções que o governo chama de PPA, parte significativa dos projetos apresentados no final de agosto constitui-se apenas num repeteco dos programas previstos pelo Brasil em Ação em 1995. Trata-se, portanto, de mais uma peça de ficção como o próprio orçamento da União, elaborado no melhor estilo kafkiano. Com uma agravante: dos recursos previstos pelo governo em investimentos quando FHC iniciou seu mandato, só um terço havia sido destinado aos 42 programas prioritários.
Mas priorizar o trabalhador nunca foi, de fato, o forte deste governo. Tanto é verdade que o orçamento da União para 2000 projeta aumento de R$ 211 bilhões para R$ 229 bilhões em receitas, porém, sem corte de gastos. O que leva à conclusão de que o trabalhador vai ser obrigado a novamente engordar os cofres da Receita Federal com aumento de impostos. Tanto isso é verdade, que FHC já prorrogou o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e a manutenção da alíquota de 27,5% do Imposto de Renda para os assalariados.
Analisados nesta perspectiva, os 365 programas do PPA já que em nenhum momento se assume o compromisso de reduzir as taxas de juros, declarar a moratória da dívida externa ou cobrar as dívidas dos grandes devedores da sonegação fiscal não passam de um novo plano de metas que, mais uma vez, pretende fazer em quatro anos o que não se fez em quarenta.
A diferença é que o Brasil de Juscelino não tinha uma dívida interna superior a R$ 400 bilhões. Nem 12 milhões de desempregados. Nem 28 milhões de pessoas abaixo da linha da miséria. Nem os juros mais elevados do mundo 25,9% ao ano, segundo o Banco BBA, já descontada a inflação. Nem uma inflação crescente, que deve se situar em 12% ao ano em 1999. Diante de tamanha galeria de problemas, cuja solução é indispensável ao desenvolvimento, falar em investimentos de R$ 1 trilhão soa como piada de mau gosto.
Os brasileiros não querem mais promessas vazias e utópicas. Querem apenas resolver definitivamente seus problemas. O que só é possível com a adoção de medidas rigorosas e concretas em defesa da maioria excluída da sociedade e não da defesa arraigada do liberalismo mais selvagem de que se tem notícia na história do Brasil, como tem sido neste governo. Como bem o sabe o nosso presidente, não se constroem castelos na areia. Nem sobre o ar seco de Brasília, tão comum nesta época do ano.
- PADRE ROQUE é deputado federal do PT-PR e professor universitário licenciado em Ponta Grossa





