Primavera cinzenta
Gaudêncio Torquato
A guerra entre os grandes partidos começa a pegar fogo e tem como combustível a impopularidade de Fernando Henrique. Estivesse posando no cenário plácido da boa imagem, o presidente continuaria a ser o fiel da balança e o depositário de uma aliança política que só abriria rachas nas proximidades das eleições de 2000. Diante da ameaça de naufrágio, passageiros e tripulantes começam a abandonar o navio governista.
O PSDB perde importantes quadros e pode se esvaziar. O PPS de Ciro Gomes engorda rapidamente, até porque se transformou em refúgio de tucanos insatisfeitos. O PMDB e o PFL engalfinham-se na luta por espaço e visibilidade, tendo como palco mais imediato o PPA (Programa Plurianual), que se transformou no cabo de guerra de ACM e Jáder Barbalho.
As consequências da disputa antecipada poderão ser danosas. O alto custo que o País está pagando para manter a estabilidade da moeda seria consumido por impasses na negociação política em torno das reformas em andamento no Congresso, comprometendo o calendário e inviabilizando as metas acertadas com o FMI.
As pressões políticas desabariam sobre o Palácio do Planalto e o presidente, em véspera de eleição municipal, mesmo com um Orçamento rígido aprovado pelo Congresso se tornaria refém de bases ávidas, dispersas e tendentes a defender a prática do fisiologismo. O retorno da inflação é uma possibilidade desse cenário.
No espectro político, as movimentações sinalizam para o adensamento de dois eixos: um, no campo central, outro, na área de centro-esquerda. Partidos médios como o PTB, plantados no centro, sem grandes compromissos com candidaturas presidenciais, passam a ganhar adeptos, que ali vão passar uma temporada espiando os perfis mais viáveis para 2002.
O PMDB, também na área central, reforça-se com o desligamento gradual das hostes governistas. Pedro Simon, o aguerrido senador gaúcho, faz papel de porta-bandeira dos primeiros ensaios na ala presidencial. Conserva Itamar na reserva. O PFL perde um pouco com a saída de parlamentares temerosos de serem identificados com governismo desastrado. O ícone do partido é ACM, que só sairá como candidato se ‘‘divisar efetivas possibilidades’’.
A área de centro-esquerda está sendo tomada pelo PPS, de Ciro Gomes, com a simpatia do governador Mário Covas, que vê nele uma alternativa, caso o PSDB não tenha fôlego para chegar à praia. José Serra, cheio de dinheiro no Ministério da Saúde, está atento.
O PT chegará à margem das eleições com o histórico índice que eleva Lula – em torno de 30% – ao primeiro lugar. A mesmice da situação e do perfil acabará canibalizando sua boa posição. Crescerão perfis menos desgastados e mais limpos para a opinião pública. O PPB permanecerá numa linha auxiliar, como coadjuvante, até porque Paulo Maluf, a maior figura do partido, encontra-se em fase de baixa, devendo restringir-se ao cenário paulista. Do PDT de Brizola, não se pode esperar muita coisa, a não ser alguma investida de Anthony Garotinho, em um cenário de excelência administrativa no Rio de Janeiro.
A verdade é que o segundo mandato de Fernando Henrique ainda não tomou forma. O presidente está cada vez mais isolado, cercado por uma monumental cadeia de problemas, a começar pelo desemprego e pela violência que desestruturam as bases racionais e emotivas das populações das grandes e médias cidades. Mesmo que o País retome o fio do crescimento, será muito difícil Fernando Henrique recuperar a boa imagem que detinha no primeiro mandato.
Estamos chegando ao final do ano com a sensação de que a reforma tributária, chama de esperança do setor produtivo, só vingará no próximo ano, com sua aprovação no Senado, para ter validade em 2001. E a reforma do Judiciário também abre mais tempo em função do assassinato de um juiz no Mato Grosso. Em resumo: de uma paisagem verde, desenhada no início do ano, passamos a ver as cores cinzas. E mesmo na primavera que se descortina, as flores nas praças e jardins já não são tão viçosas e exuberantes. O ar está pesado.
- GAUDêNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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