Nada mais deletério, destruidor, letal do que a mentira governamental, oficial, especialmente quando essa mentira reflete-se na vida de uma comunidade, envolve famílias, trapaceia a opinião pública, confunde as pessoas. É o caso do curso de medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Contra tudo o bom-senso, o orçamento, a responsabilidade fiscal, que agora obriga os governantes à seriedade, mesmo que forçosamente, a opinião das entidades médicas, e até mesmo contra a lógica do mercado, o governo passado criou o curso. Na verdade, que todos lembrem e sejam autênticos na lembrança, o curso foi criado ou melhor, forçado durante uma campanha política para obter ganhos eleitorais.
Criaram o curso, mas não disseram onde buscar os R$ 70 milhões para implantá-lo, consolidá-lo e mantê-lo. Criaram o curso, mas não deram a ele os requisitos mínimos, básicos para que pudesse formar profissionais competentes e responsáveis. Não é apenas a questão de se enquadrar nos pré-requisitos de necessidade social e infra-estrutura exigidos pelo Ministério da Educação.
Afinal, é melhor que a verdade doa agora do que a mentira de um curso, que é apenas uma fantasia, tenha consequências trágicas depois. É melhor que o remédio amargo seja aplicado hoje do que o estelionato eleitoral faça vítimas no futuro.
A falta de corpo docente, de equipamentos e de hospitais com cursos de residência reconhecidos pelo MEC contrapõem o voluntarismo daqueles que ainda acham que é possível fazer vingar o curso.
A verdade dói ainda mais quando sabemos que as três faculdades estaduais de medicina do Paraná precisam de grandes investimentos para manter a qualidade do ensino. A verdade fica ainda mais angustiante quando sabemos que os cursos de medicina consomem até 50% dos recursos de nossas universidades, que 63 mil estudantes que nelas estudam poderiam ser afetados por uma crise sem precedentes, caso o curso de medicina de Ponta Grossa e seus 40 alunos fossem atendidos.
E vejam mais este dado: o Paraná, com menos de 10 milhões de habitantes, tem quatro cursos de medicina públicos. São Paulo, com 35 milhões de habitantes, tem seis cursos. Assim dá para ver quanto os cursos de medicina oneram o tesouro público paranaense. Logo, essa tendência de criar mais e mais cursos de medicina deve ser detida, sob o risco de deteriorar o conjunto do nosso ensino universitário público estadual.
Enfim, não existe nada mais pernicioso do que a intromissão eleitoral, que a demagogia irresponsável, que o clientelismo enganador na definição de um assunto tão sério, tão complexo quando à instalação de um curso de medicina. Aqueles que enganaram os eleitores, beneficiaram-se da promessa impossível de ser cumprida. Que eles, agora, respondam pelo que fizeram.
De todo o modo, se Ponta Grossa vê-se privada do curso de medicina, em contrapartida passa a receber uma atenção cuidadosa do governo do Paraná no setor de saúde. Centro de uma das principais regiões do estado, onde reúnem-se mais de 750 mil pessoas, Ponta Grossa também foi esquecida pela administração anterior e passou a enfrentar problemas muitos sérios como a falta de leitos e UTIs.
Agora, a Santa Casa da cidade passa a receber R$ 100 mil por mês e o Pronto- Socorro outros R$ 30 mil da Secretaria de Saúde. E o número de UTIs passou de 18 para 40. Das 22 novas UTIs, seis são neonatais, dez adultas e seis infantis. Em um curto período, o governo conseguiu reduzir um dos mais graves problemas da Saúde na cidade que era a falta de UTIs.
Enfim, se Ponta Grossa perde temporariamente uma faculdade de medicina para atender 40 alunos apenas dez deles da cidade os 750 mil habitantes dos Campos Gerais, finalmente, terão a sua saúde tratada com prioridade. Isso é qualidade de vida. O contrário é a mentira. E ela faz muito mal.
ATTÍLIO S. MELLUSO é diretor financeiro do Sindicato dos Médicos do Paraná

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