A verdade de cada um
Pessoas que me lêem perguntam porque não respondo às cartas dos que me contestam. A resposta é que não devemos nos ater a detalhes como a busca da pronta aceitação por parte dos que pensam diferente.
Não viso, com o que escrevo, estimular debates. Aplaudir ou contestar é livre, porque, embora sendo a verdade uma apenas, ela se apresenta conforme o grau de evolução e ponto de vista de cada um. Simplesmente escrevo. Se o que lanço é uma semente boa, ela cairá em terra fértil e frutificará; se não for, secará. Basta-me esta compreensão e a consciência da responsabilidade. Assim como deve haver responsabilidade dos que elogiam ou criticam. Para aplaudir é preciso conhecer; para contestar, tanto mais. E conhecimento, no sentido de sabedoria, não se aprende, mas se descobre. Ele brota da Fonte, e quem a conhece sabe onde ela fica e como se manifesta...
As polêmicas mais comuns são sempre as que se relacionam com as crenças: religiosas, doutrinárias, filosóficas. Unanimidade, lamentavelmente, só tem havido quando trilhamos pelas valas comuns, como a das queixas e lamentações, as críticas ao governo, a maldição sobre os infortunados que vicejam na delinquência, enfim esses temas que só fazem semear mais iras, e não exigem pensar. Já os que tratam de nossas questões transcendentes, estes inquietam, e então cada qual saca do bolso o seu código religioso ou moral, e ali está a sua verdade. E como tal tem que ser respeitada. Às vezes ambos têm o mesmo código, mas o interpretam de maneira diferente. Uns o lêem em grego, outros em aramaico... E há os que nem o lêem mas o compreendem, pois já trazem dentro de si a sabedoria das respostas.
Embora a verdade seja apenas uma.
E quando a conhecemos, nos tornamos livres.
Um bom caminho, para aqueles que ainda se encontram no vácuo da dúvida, é recolher-se ao seu templo interior e escutar o sussurro da própria alma. Porque cada qual é o caminhante e o próprio guia; é o discípulo e é o mestre. Ao invés da permissividade cega, cultivar com independência a harmonia com todas as coisas. Persistir no abandono ao conflito, para poder enxergar a beleza do viver. Vigilante, mas permitindo a fluência da vida. Desarmar o espírito e evitar a crítica inconsistente, o ódio e a maledicência, porque eles nos corróem. Regozijar-se pelos triunfos alheios. Harmonizar-se com todas as coisas boas que queremos, e saudá-las, como bem-vindas. Mentalizar idéias de sucesso e de crescimento material e espiritual. Fazer o máximo esforço para perdoar sempre, e perdoar também a nós próprios, porque o não-perdão e a intolerância emperram tudo.
Não há necessidade de sermos tão rigorosos conosco, porque ninguém tem obrigação de superar-se a cada dia. Já somos super-seres, na transdimensionalidade. Tudo o que fazemos é perfeito, porque o mal não existe na consciência de Deus, e todos são caminhos de perfeição. Refazer a paz com a vida, fazê-la mais leve, não obstante as atribulações que nos cercam, no mais das vezes produto de nossos medos e da nossa insegurança. Deixar fluir as boas qualidades que existem em nós, para que operem a nosso serviço e dos que nos cercam.
Os tempos não são necessariamente bons nem ruins. Os tempos bons são aqueles que fazemos bons.
Incrivelmente, certas pessoas se incomodam porque exalto as virtudes e potencialidades da essência do homem. Os ensinamentos que receberam impregnaram-lhes a mente com idéias de limitação e de pecado, de iras divinas e punições eternas, doenças e sofrimento, um reino de Deus longínquo, e pelo caminho hordas malignas sempre à espreita... Ignoram que tudo o que admitimos e reconhecemos pode manifestar-se pelo poder da mente criadora, porque lhe damos validade. Não é à-toa que tantos sofrem, não obstante religiosos e mansos.
As pessoas sentem dentro de si a impulsão pela busca de desvendar o mistério, mas muitas temem avançar, porque isto exigiria abandono de certas crenças arraigadas; temem o patrulhamento de seus iguais; temem a renúncia ao comodismo, pois delegaram aos seus mentores a incumbência de pensar por elas. Falta-lhes segurança em sua própria fé, perderam a memória da plenitude da luz de onde são originárias, e, tementes, hesitam em acreditar-se seres divinos, como tal já salvos e libertos.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup