A verdade das urnas - Alípio Severo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de novembro de 1998
Alípio Severo 
Eleições são como caleidoscópios. Dependendo de que lado se vê, revelam uma ou várias verdades. Descontadas as falácias estatísticas que são muitas, elas mostram ou ocultam muitas lições. Ter maioria em um pleito pode significar vitória para uns, derrota para outros. Comparem-se os casos das candidaturas ao Senado, que são disputadas por maioria relativa, com a de governadores, que exigem maioria absoluta. A maioria que vale para uns não vale para outros, que têm que se submeter ao vale-tudo do segundo turno. Logo, quando aludimos à maioria, é preciso explicar a qual delas estamos nos referindo.
Como aprendemos na escolha de Tancredo no colégio eleitoral, em janeiro de 1985, a soma dos números da política nem sempre corresponde à soma aritmética dos números. O PDS tinha maioria, mas seu candidato perdeu por uma diferença de 300 votos. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu maioria absoluta em duas eleições consecutivas. Mas apenas em relação aos votos válidos. Se contássemos todas as manifestações do eleitorado, isto é, os votos brancos e nulos, seu desempenho somaria 43,14%. Lula teria 24,7%, em vez dos 31,71% que conseguiu, em face da legislação eleitoral.
Quando se trata de eleições proporcionais, então, os números enganam ainda mais. Como a própria adjetivação dessa modalidade de escolha explica, o que vale não é a quantidade absoluta dos votos para medir a força eleitoral de cada um, mas a quantidade relativa, que é exatamente proporcional à totalidade dos eleitores que votam. É o caso dos deputados federais e estaduais.
Em termos absolutos, o deputado mais votado do País foi José Genoino, do PT, sem dúvida um dos melhores e mais qualificados dos quadros da oposição. Ele teve, no maior eleitorado do País, que é São Paulo, exatos 306.988 votos, e o menos votado, Salomão Cruz, do PSDB de Roraima, míseros 5.253 votos. Entretanto, o deputado paulista não conseguiu mais do que 1,97% do eleitorado votante, enquanto o representante de Roraima alcançou 4,16% dos votos válidos em seu Estado. Se Genoino tivesse conseguido o dobro de seus votos, ainda assim não alcançaria, em termos relativos, o seu colega de Roraima. Para alcançar o deputado Henrique Eduardo Alves, do PMDB do Rio Grande do Norte, que conseguiu 163.572 votos, representando 15,74% dos eleitores potiguares, Genoino precisaria pelo menos de 1.400.000 votos!
Um candidato a governador que perde no primeiro turno pode ganhar no segundo, se nenhum de seus adversários tiver maioria absoluta. Mas esse consolo não têm os candidatos ao Senado que levam ou perdem, segundo tenham ou não maioria absoluta, como, de resto, aconteceu com a maioria. O campeão dos votos para essa Casa foi Eduardo Santos, do PFL de Tocantins, com 74,70% dos votos, da mesma forma como o recordista de votos para os governos estaduais foi José Maranhão com 80,65%, uma proporção que só encontra paralelo na República Velha, quando o voto não era livre e as eleições eram feitas a bico de pena.
Como se vê, há muitas maneiras de olhar os resultados eleitorais. E, para avaliá-los em seu conjunto, exige-se muito mais que comparar números e proporções. O desempenho de cada um não se conta só pelos sufrágios, mas sobretudo pela ação e a capacidade de articulação que só vai se aferir quando o jogo começar, em fevereiro de 1999. Aí a verdade das urnas será outra e diferente, para que, finalmente, possamos saber quem ganhou ou perdeu.


