A venda da Vale
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sexta-feira, 03 de janeiro de 1997
Rubem Azevedo Lima 
A Anglo American e a Rio Tint Zinc (RTZ), ambas empresas inglesas, a primeira sediada na África do Sul - que controlam 60% da produção mundial de ouro, 47% de titânio, 43% de manganês, 40% de níquel, 25% de cobre e 21% de ferro - mais as japonesas Mitsubishi e Wertern Mine e a canadense Noranda, são as principais interessadas na compra da Vale do Rio Doce. Hoje, o Brasil - através da Vale - e a Austrália produzem 52% de todo o ferro vendido no mundo. Com a compra da Vale pela Anglo American - grupo favorito para adquiri-la -, o comprador controlará 50% da produção mundial de ferro e, na mesma porcentagem, a de bauxita, cujas reservas, em 98%, estão no subsolo da Amazônia brasileira.
Os especialistas em comércio de minérios acham que o preço calculado para a venda da Vale, pela empresa de consultoria e corretagem Merryl Linch, está abaixo da realidade mundial. Serão vendidas as ações da empresa e a União só possui metade desses papéis. Realizada a venda, o Tesouro Nacional receberá, pois, US$ 5 bilhões e mais nada.
Tais números dão o que falar entre militares e líderes civis brasileiros, contrários à alienação da Vale. Entendem todos que, no caso, o País também estará vendendo parte de sua soberania. O ex-ministro do Exército general Leônidas Pires, admitiu, no Clube Militar, que a Vale não é do Brasil, é o próprio Brasil.
O presidente Fernando Henrique manteve contato com emissários da Anglo American, na visita que fez à África do Sul, acentuando que o Brasil não desistirá de vender a Vale. A jornalista Sílvia Palácios, correspondente da EIR no Rio, revela que os acertos sobre tal operação devem dar-se quando FHC for a Londres, para receber o título de Sir.
Um dos motivos do grande interesse da Anglo pela Vale é que aquele grupo controla a Central Selling Organization, o cartel mundial de diamantes, de Nicky Oppenheimer, dono da De Beers, maior produtor de diamantes do mundo. Mas a De Beers enfrenta hoje competição anárquica no comércio internacional, da RTZ, além de aventureiros do Brasil que extraem diamante em Angola e de máfias russas, que contrabandeiam tais gemas em larga escala, abalando seu preço. Recentemente, a Austrália, também produtora, separou-se do cartel da De Beers. Assim, ao livrar-se de tais complicações, a Anglo se concentraria na exploração das jazidas da Vale na Amazônia, ricas não só em ferro, mas em titânio, ouro, cobre, niquel e manganês, consideradas o melhor negócio do mundo, nesse final de século.
Por tudo isso, e dadas as implicações geopolíticas da operação, os adversários da venda da Vale querem que o assunto seja examinado em profundidade e sob todos os seus aspectos, pois estaria em jogo a própria soberania do Brasil, como País independente. Tanto mais que sabem, perfeitamente, que a Anglo American, por seu enorme poder, é a força que se sobrepõe hoje, ao governo da África do Sul e controla a política desse país. Esse é o x do problema.
- RUBENS DE AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


