A venda da Celular
Tive a oportunidade de acompanhar o primeiro debate público sobre a realização ou não do plebiscito para a venda da Sercomtel Celular. Como sabemos, o plebiscito na época em que a lei foi aprovada pela Câmara tinha como objetivo evitar que os 55% de ações restantes de posse da prefeitura, tivessem o mesmo destino dos outros 45% o desvio.
O futuro da Celular no setor não é e nunca foi a causa de uma lei que permitisse vendê-la para qualquer player do mercado de telecomunicações, pois a causa apontava no sentido de preservar o que restava da operadora de telecomunicações. Naquele momento havia preocupação quanto ao destino do valor a ser arrecadado, preocupação que acabou se confirmando com a cassação do mandato do prefeito Antonio Belinati.
Também é possível que uma lei que versasse sobre autonomia de saque de dinheiro da conta do Conselho de Gestão Financeira (Cogefi) órgão responsável por gerir o dinheiro da venda das ações, pudesse apresentar um resultado melhor para o município. Como não ocorreu, infelizmente os londrinenses saíram perdendo. Mas, foi curioso observar, no debate, que a realização de um plebiscito para decidir sobre o futuro da Celular passou a ser a única e exclusiva causa da elaboração da lei, que ora sabemos não corresponde aos fatos da época.
Posso estar enganado sobre o que é causa (administração anterior cassada) e o que se tornou efeito (futuro da Sercomtel Celular), diferentemente dos vereadores que apregoam a realização de um plebiscito em nome da participação popular delegando tema extremamente importante como vital para a sobrevivência da Sercomtel Celular levantando bandeiras em nome do futuro da empresa e do patrimônio do município.
Penso que se a prefeitura não conseguir transpor a barreira do plebiscito e portanto não concretizar a venda da Sercomtel Celular, seria prudente que os mesmos vereadores que votaram a favor do plebiscito se apressassem para elaborar leis que apresentassem soluções para as seguintes questões de mercado e competitividade, que certamente e mais vigorosamente atingirão a Celular.
Aos vereadores, favoráveis à realização do plebiscito, deixou algumas indagações para reflexão: como uma empresa pautada pela Lei 8.666, atuando em um setor extremamente competitivo, o que significa agilidade a cada minuto, poderá competir? Como lidar com a expectativa de funcionários que esperam se desenvolver profissionalmente em uma empresa multinacional, e que permanecem (se é que vão permanecer) em uma empresa municipal, e que tenha como acionista majoritário a prefeitura? Como atrair executivos e profissionais de reconhecida capacidade pelo mercado para aprimorar a gestão da empresa, dado que a mesma, pela sua natureza jurídica só pode contratar através de concursos públicos? Como obter dos fornecedores de tecnologia a mesma atenção e vantagens? (Enquanto a Sercomtel apresenta a aquisição de 10 mil handset seus concorrentes negociam 1 milhão); Como tratar os ciclos de desenvolvimento tecnológico cada vez menores (depreciação da tecnologia tornou-se obscena) que exigem investimentos altos e constantes? Como captar novos clientes além de manter os de melhores receita a baixos custos? (Observem que concorrentes serão de um lado o Grupo Portugal Telecom, leia-se Global Telecom, em processo de fusão com Telefonica Espanha e de outro a Telecom Italia).
Outro fato importante para reflexão dos vereadores: exceto em mercados de demanda reprimida e estamos falando de São Paulo e Rio de Janeiro através das operadoras BCP e ATL (Banda b) nenhuma outra empresa concorrendo com empresas já estabelecidas atingiu em tão curto espaço de tempo 40% de market share; entretanto, a Global Telecom (Banda b) concorrendo com a Sercomtel apresenta-se como uma exceção à regra.
Portanto, o que está em jogo não é a participação dos cidadãos através do voto, que poderá ocorrer de forma emotiva ou não, e sim a sensatez dos vereadores no que diz respeito ao custo da oportunidade. Se a venda da Celular ocorresse nos próximos meses, o município arrecadaria algo em torno de R$ 70 milhões. Não acredito que esta mesma empresa possa valer, a partir do próximo ano, 20% deste valor.
Cabe aos vereadores legislarem e pressionarem o Executivo para que este, de forma transparente, administre os recursos obtidos. Sugestão: procurem obter a cópia do Plano de Desenvolvimento Industrial (PDI) desenvolvido pela conceituada empresa de consultoria Andersen Consulting. Trata-se de um estudo criterioso apontando caminhos para o desenvolvimento de Londrina.
- FRANCISCO RODRIGUES GOMES é gerente de empresa de telecomunicações em Londrina





