A velha República das Bananas
Maria Lucia Victor Barbosa
A baderna realizada em Brasília quarta-feira passada diante do Congresso Nacional, e promovida pela CUT e outros adeptos de Lula, teve toda sorte de participantes: esquerdistas radicais, bêbados, arruaceiros, estudantes secundaristas pagos por sindicato, sindicalistas, gente que não sabia por que estava ali, os indefectíveis sem-terra que parecem preferir manifestações e passeatas ao invés do trabalho nas terras que invadem, professores em greve, punks, etc., tudo em nome dos sem-emprego. Na verdade, porém, o que se assistiu foi à tática de uma oposição que, em nada tendo a apresentar em termos de programas ou soluções, e sentindo-se fraca eleitoralmente, resolveu partir para a desordem com nítidos intuitos golpistas.
A situação começou a esquentar quando um grupo mais exaltado, ou pela bebida, ou por arroubos ideológicos, ou por ambas as coisas, derrubou a cerca que fica na entrada do Congresso. Nessa hora os policiais enviados pelo governador do Distrito Federal, o petista Cristovam Buarque, fizeram o que tinham de fazer: defenderam o patrimônio público. E se é verdade que os policiais eram apenas 540 contra 20 mil manifestantes armados de paus, pedras e coquetéis molotov, a polícia deu conta do recado.
Interessante é que diante da violência da turba, Vicentinho, demais líderes sindicais e parlamentares do PT e da esquerda, protestaram inocência alegando que o tumulto escapara ao controle dos organizadores, ou seja, eles mesmos. Entretanto, não há desculpas, pois os que organizaram a manifestação devem responder por suas consequências.
A dramatização do espetáculo montado em Brasília ficou também por conta de um cachorro que rasgou a calça do elegante terno do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), a peça, aliás, que ele exibiu como troféu. A calça estava aberta na costura lateral, em perfeita linha reta de cima a baixo. Quanto à perna do senador, não apresentava nenhum arranhão. Isto pode significar que a polícia evoluiu bastante no treinamento dos seus cães, que agora incluem a modalidade do cão-alfaiate, que rasga a calça só na costura sem danificar o tecido nem morder a perna do indivíduo atacado, o qual, no máximo, pode se transformar num sem-calça. E como dizem que certa vez o senador Suplicy apenas simulou dormir na barraca de um acampamento de sem-terra, mas que depois das fotos para a imprensa foi passar a noite no melhor hotel da cidade mais próxima, fica também a dúvida sobre o episódio referente à mordida perfeita do cão-alfaiate.
De todo modo, a baderna converteu-se no primeiro comício do candidato Lula, em que pese o fato de que, pela lei eleitoral, só no dia 5 de julho as campanhas podem começar. Mas ao Lula, conforme ele mesmo afirmou na sua campanha passada, não interessa a lei e sim a justiça, uma justiça que não ficou bem esclarecida, e que sem ser decorrência da lei pode descambar facilmente para a ‘‘justiça’’ dos caudilhos ou dos ditadores, cuja vontade é lei.
Sem-lei, e encarapitado no trio elétrico estacionado no gramado próximo ao Congresso, Lula falou à vontade. Seguiram-se outros oradores, todos embalados pela excitação que os palanques conferem. Mais uma vez se revezaram nas críticas ao governo, nada propondo como solução. Oscilaram entre besteirol político e alucinação coletiva que os movimentos de massa propiciam e, é claro, foram aplaudidos delirantemente pela heterogênea platéia e pelos cabos eleitorais do PT, PDT, PC do B etc.
Mas o que aconteceu em Brasília foi apenas um ensaio, e os opositores do presidente prometem pelos jornais uma escalada ascendente de desordens que vão dos saques às invasões de terras, bancos, prédios públicos etc. Atrás de tudo, o objetivo nítido de desmoralizar o governo e as instituições e, então, assumir o poder. Pelo menos é isto que se depreende de trechos do manifesto da facção Articulação de Esquerda, denominado ‘‘Uma Estratégia Socialista para o Brasil’’. Este documento foi brilhantemente analisado pelo senador Jarbas Passarinho em ‘‘O Estado de S. Paulo’’, dia 19/5/98, em artigo intitulado ‘‘Enfermidade Social’’.
Segundo o manifesto da Articulação, ramo do PT onde Lula se insere, ‘‘é preciso retomar a tradição revolucionária rupturista, de tensionamento da ordem e da inconstitucionalidade, que marcaram o PT’’. E mais adiante no panfleto, João Stédile dá seu remédio para o que considera malogro do ‘‘atalho’’ para o poder: ‘‘Luta ideológica em defesa do socialismo, aplicação da táticas baseadas na luta de massas’’. Quanto ao socialismo que os revolucionários pretendem construir, se continua vago é mais pretensioso e paranóico do que os que já existiram, porquanto ‘‘tem que ser a construção de um socialismo mais avançado que se tentou construir na União Soviética e em outros países’’.
Fica, portanto, óbvio que, sentindo que não podem ganhar o poder pela via eleitoral, esses falsos democratas vão apelar para o golpe, que aliás já está em curso. É a síndrome latino-americana da República das Bananas, com todo o atraso que isto implica. Só não vê quem não quer.
- MARIA LÚCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

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