A veleidade chamada Brasil
De fato há um clamor dos que entram em filas, pagam impostos que nunca os beneficiam, ganham a vida com modestos salários, ou estão desempregados
Na sua obra clássica Os donos do poder, Raymundo Faoro lembra Machado de Assis para referir-se ao Brasil: A civilização brasileira, como a personagem de Machado de Assis, chama-se Veleidade, sombra coada entre sombras, ser ou não ser, ir e não ir, a indefinição das formas e da vontade criadora. Acrescente-se que esta personagem que nasceu e cresceu a partir do nosso processo histórico, apesar de não ser claramente visível a olho nu pois sua essência é cultural, tomou forma material como Pátria de Macunaíma, Reino do Dá-se um Jeito, Terra do Viva e Deixe Viver. E fomos ficando para trás ao longo do tempo ao forjamos nossas desigualdades sociais, ao abrigarmos placidamente nossas oligarquias, ao cultivarmos nossa dependência ao pai Estado.
Hoje se pode dizer que progredimos enquanto personalidade coletiva. Existem eleitores mais atentos, os chamados eleitores de resultados; o povo está possuído de indignação moral perante os desmandos que acontecem na esfera do governo; a liberdade de imprensa e a afirmação do poder da mídia que dá vida ou morte à opinião pública e aos políticos. Tudo enfim parece indicar que no Brasil a democracia se aprimora, a cidadania evolui e a Justiça levanta de leve sua venda para olhar de esguelha os filhos dessa Pátria tão desamparados de leis eficientes e isonômicas.
De fato há um clamor dos que entram em filas, pagam impostos que nunca os beneficiam, ganham a vida com modestos salários, ou estão desempregados. Diante do fulgurante Olimpo do poder onde, pelo menos a maioria que galga cargos públicos entra pobre e sai rico e os que são ricos mais ricos ficam, eleva-se o clamor difuso da insatisfação popular. Existe um cansaço cívico e com nossa personalidade ciclotímica que oscila entre 8 e 80, protestamos com veemência contra a corrupção alojada nos bastidores do poder, como de resto em toda sociedade. Está instalado no Brasil um clima de Bastilha e os grupos de pressão insurgem-se vigorosamente contra os descalabros que, se existem nos países do Primeiro Mundo, lá são barrados ou punidos de forma bem mais rápida e eficiente.
Os sinais se avolumam e denotam rupturas no barco do Estado. É sintomático, por exemplo, que a Força Sindical, que sempre apoiou o presidente Fernando Henrique Cardoso, esteja pedindo a cabeça do ministro da Fazenda, Pedro Malan.
É preocupante que aconteçam manifestações como a dos policiais militares do Paraná em busca de salários mais dignos, desencadeadas no último dia 15 com a participação ativa de suas mulheres que demonstram com seus atos a coragem do desespero. É sabido que no Brasil os policiais são mal pagos, mal treinados psicologicamente, mal armados (os bandidos possuem armamentos muito melhores) e que apesar disso tenham que arriscar suas vidas.
Entretanto, a atitude dos policiais militares que em Londrina deram as costas para um palestrante enquanto gritavam, salário, não obedecendo a ordem do tenente-coronel Robenson Máximo Fim, comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina, para que parassem o protesto, denota a indisciplina que nos meios militares precede a desordem que pode se tornar incontrolável e com desfechos imprevisíveis. Além do mais, se já somos faltos da aplicação justa da lei, sem a segurança que a força policial tem como dever e finalidade propiciar ficamos numa espécie de estado de natureza onde, nas palavras de Thomas Hobbes, o homem torna-se o lobo para o homem.
Falha assim fragorosamente o governo estadual no caso da Polícia Militar. No entanto bastaria, por exemplo, por todo o País, extinguir-se os Tribunais de Contas, esses cabides de emprego, arabescos laterais do Executivo em conluio com o Legislativo; diminuir-se os cargos comissionados para parentes e amigos, reduzir-se secretarias e ministérios e, sobretudo parar de roubar o dinheiro público, para que sobrassem recursos suficientes para pagar a quem realmente trabalha como policiais, professores e outras categorias do funcionalismo.
Como nada é feito, nunca há verbas suficientes, ou se as há servem para sustentar certos privilégios das cortes e não as necessidades dos assalariados que no Brasil de modo geral recebem pagamentos irrisórios, o que acontece, diga-se de passagem também na iniciativa privada. Desse modo, aumenta a insatisfação popular já ciente de que se não houvesse tanto desgoverno seríamos um povo mais próspero e mais feliz.
A desordem social que vai se processando no País aparece também sob a forma de movimentos de massa como o do MST, que originalmente dirigido para a reforma agrária degenerou em violência, esbulho contra produtores rurais, formação de grupos paramilitares sem farda que, sob o comando de certas lideranças, servem talvez sem o saber aos interesses de poder dos que almejam as revoluções impossíveis para instalar as utopias fracassadas. Não têm conhecimento os sem-terra do que disse Joaquim Nabuco: A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las e com eles é impossível governar.
É um tanto assustador também que nesse momento vozes da direita e da esquerda profiram em uníssono o mesmo discurso moralizante contra o presidente que querem desmoralizar.
Tem algo mais no ar que o vento frio de maio, e a grande questão está não nos que pedem vingança mas nos vingadores. Estes virão montados nas esperanças do povo e no moralismo que pregam mas que não praticam. Todo cuidado dever ter, portanto, o presidente Fernando Henrique Cardoso para não apagar o Brasil junto com o racionamento de energia. Afinal, seu governo, em que pesem os grandes méritos do Plano Real, foi conduzido pela personagem de Machado de Assis, e isto pode ser o pretexto para os que se dizem puros empolgarem futuramente o poder. Se tal acontecer, com toda a probabilidade despencaremos pelas ladeiras dos séculos para o encontro com o nosso velho conhecido: o atraso.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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