A veleidade chamada Brasil - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de fevereiro de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
No dia 31 de janeiro, pude ler em O Estado de S. Paulo uma peça memorável de oratória que deveria ter sido estampada em toda a imprensa, mas que infelizmente deve ter passado despercebida para a grande maioria: o discurso de despedida de Roberto Campos da vida parlamentar. Naquele texto impressionou-me a lucidez, a precisão, a objetividade, a capacidade de síntese e de análise deste homem que pode, sem sombra de dúvida, ser considerado como uma das maiores expressões brasileiras de inteligência, e que exatamente por isso não obteve o reconhecimento social à altura de tal capacidade. Ele mesmo reconhece tal coisa em seu retrospecto melancólico, como chamou o discurso, ao dizer: Fui antes um pregador, quase um profeta sem carisma, pois que conseguia detectar na bruma do futuro a silhueta das coisas, sem grande capacidade para mobilizar outros em função dessas visões.
De fato filtra-se desse discurso a melancolia do homem público que não conseguiu fazer mais, apesar de sua imensa vontade individual, insuficiente, porém, diante da vontade coletiva política que não flui, nem absorve; e da vontade societária, marcada desde o berço por uma indiferença abissal e pela marca cultural que Ortega y Gasset chamou de aristofobia, esse ódio ou medo dos melhores e essa preferência quase unânime pelos piores. Uma melancolia que entre outras coisas advém, como afirma Roberto Campos, de nossa insuportável mesmice, que realmente se descortina na realidade, e que vem sendo perpetuada em comportamentos repetidos ao longo da história.
O discurso de Roberto Campos deveria pelo menos ter sido lido pelos que perplexamente se indagam a respeito dos contrastes existentes neste país ao mesmo tempo tão pobre e tão rico. Eu mesma venho refletindo sobre tais diferenças em meus livros e artigos, sendo que encontrei certas explicações partindo de uma análise cultural centrada em atitudes, comportamentos e valores plasmados ao longo da história e esculpidos pelas instituições. Porém, Roberto Campos amplia a compreensão de nossa realidade quando apresenta três fatores explicativos do contraste entre potencial de riqueza e pobreza do desempenho, que no Brasil são constantes seculares: Deformações culturais, erros comportamentais e a armadilha do meio sucesso.
O meio sucesso (que não leva nem ao claro sucesso, nem ao fracasso exemplar) me fez retroceder a uma citação de Raymundo Faoro em Os donos do Poder: A civilização brasileira, como a personagem de Machado de Assis, chama-se Veleidade, sombra coada entre sombras, ser e não ser, ir e não ir, a indefinição das formas e da vontade criadora. E é isso que se vê e se sente diariamente nos altos e baixos da nossa economia, da nossa política, do nosso orgulho ou vergonha nacional que oscilam ao sabor dos ventos de nossas vitórias ou fracassos.
Quando o fracasso acontece, ambiguamente nunca o assumimos, preferindo atribuir culpas a alguém, a algum país ou instituição. Assim, se os juros sobem, se a moeda se desvaloriza perante o dólar, a culpa deve ser dos americanos, do FMI, ou mesmo de Cristóvão Colombo. Quem mandou este último descobrir a América? Estava tão bom! Se não fosse aquele genovês desapiedado estaríamos até hoje curtindo a Idade da Pedra Lascada, num carnaval alastrado pela morna languidez desses trópicos, numa tranquila hibernação civilizatória por essas vastas matas a fora. Nós não temos nada a ver com nosso subdesenvolvimento, a corrupção endêmica, o populismo desenfreado, o nepotismo, os partidos inoperantes, o Estado patrimonialista e clientelista, os governos perdulários.
Mas quantos terão a coragem e a honestidade de olhar para dentro do próprio gigante pela própria natureza para tentar descobrir suas mazelas peculiares? Creio que muito poucos. A grande maioria não se interessa por tais assuntos. Apenas vive e deixa viver, e reclama quando as coisas vão mal, provocando um difuso mal-estar proveniente não se sabe de onde. Depois vêm as elites políticas e econômicas, que estão mais interessadas em usufruir do que explicar. Finalmente, encontramos a casta dos intelectuais, podendo ser esta categoria de verdade ou de mentira no sentido de que os primeiros de fato possuem certos conhecimentos e os segundos apenas simulam conhecimento, tornando-se assim especialistas de nada a respeito de tudo.
De modo impressionante, a veleidade permeia inclusive a chamada esquerda. Temos uma oposição que critica mas não apresenta soluções, revolucionários que optam por chegar ao poder pela via eleitoral, socialistas que não sabem definir sua ideologia com clareza, partidos de esquerda que se comportam da mesma maneira dos chamados de direita.
Porque existe tanta veleidade, o governador Zeca do PT faz seminário sobre nepotismo e contrata parentes, e Roberto Freire, do PPS, quem sabe em nome do proletariado, impede através de habilidosa manobra que visou apenas resguardar seu micropartido, o projeto de emenda constitucional que traria considerável melhora ao nosso sistema eleitoral. Enquanto isso, Luiz Inácio Lula da Silva é tido como líder dos trabalhadores mas não trabalha, é a grande figura emblemática do PT mas não quer mais presidir seu partido, não ocupa nenhum cargo político, tendo perdido três eleições presidenciais consecutivas, mas é chamado pela imprensa para opinar sobretudo o que acontece no País. Só falta aparecer em rede nacional, bandeira do Brasil de um lado, emblema da República do outro, cruz ao fundo, protagonizando um grande espetáculo de veleidade.
De fato, tem razão Roberto Campos, quando diz que ainda somos um saltador de saltos curtos e não um corredor de resistência. E isto dá uma melancolia!
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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