A valorosa luta dos agricultores
Para implantar a ordem, às vezes impõe-se uma necessária desordem da forma como agora fizeram os agricultores do Paraná, ao bloquear ferrovias e estradas visando sensibilizar o Governo para as suas reivindicações. O que os produtores rurais promoveram foi uma desordem pública, porém maior desordem comete o Governo ao demorar nos atendimentos ao campo, o que é de sua incumbência. Não somos desordeiros, queremos ser ouvidos, declarou um dos manifestantes. Sem sombra de dúvida, os perturbadores seculares da ordem são os governantes, por negligenciar com suas obrigações. Se as autoridades da República não se movem por via do diálogo, dos pedidos verbais e escritos, os problemas vão chegando ao ponto de exaustação e então os reivindicantes têm de valer-se da força, como esta dos bloqueios. Não se nega que o Governo, por estes dias, começou a colocar em prática a liberação de recursos, mais tendentes a acalmar os ânimos do que por uma visão consciente dos problemas que afetam a nação, muito especialmente as classes produtoras. Há a promessa de uma grande manifestação dos agricultores em Brasília, na próxima terça-feira, e isto amedronta o Governo em momento eleitoral. Agem acertadamente os produtores do campo, e a luta precisa ganhar intensidade. Porque se há houve uma quebra da ordem com a obstrução de vias públicas, devem saber as autoridades judiciais e policiais que a causa está nos maus governos e que o mais é conseqüência. Cooperativas paralisaram suas indústrias em solidariedade aos companheiros da lavoura. Moradores e comerciantes, de diversas cidades, também vieram apoiando as manifestações, não se importando com os bloqueios que também os afetaram. A linguagem que os governantes entendem é a do levante popular e a do encurralamento. O prejuízo do tráfego parado de trens e caminhões, em certos pontos, foi insignificante em face das grandes perdas da agricultura. O que não é justo é ameaçar esses manifestantes quando o Governo se safa, protegido por todas as blindagens. Ou implanta-se a ordem constitucional, com idêntica aplicação da lei para todos, sobretudo contra a irresponsabilidade governamental, ou se chegará ao caos. Alguns parlamentares da bancada federal paranaense estão agindo, mas eles são três dezenas, no total, e onde a maioria está? Está alheia. Por isso os manifestos se sucedem. Protestamos contra a falta de uma política agrícola. Hoje o problema está na agricultura, mas no próximo ano vai estar em todo o comércio, adverte a produtora rural Gilvana Amano, participante do movimento. Porque, se a agricultura não vai bem, tudo o mais capitulará e o próprio drama da fome se agravará.





