Estou, e acredito que todos nós médicos estamos indignados com o que se passa com a medicina e consequentemente com os médicos neste país. A medicina, já diziam os sábios, é uma profissão nobre, portanto o médico merece ser tratado com a dignidade que qualquer trabalhador neste país deveria receber.
A nossa saúde está um caos, com problemas envolvendo falta de verbas, má gerenciamento, falta de estruturação e corrupção. O Sistema Único de Saúde (SUS) definitivamente é falho e não consegue atender as necessidades da população. Os impostos criados pelo governo a fim de implementar o orçamento para a saúde não são suficientes para reestruturar nosso sistema de saúde. A criação de cooperativas de médicos ao invés do SUS, como em São Paulo através do Plano de Assistência a Saúde (PAS), gerou desacordos e atualmente já se mostra falho. As ‘‘brigas’’ entre governo, convênios particulares de saúde e a classe média colocam a população em situação de desespero. Até há pouco tempo, a parte da população que mais sofria era aquela que dependia tão somente do SUS. Hoje começamos a ver que, além desta, a parte associada a convênios particulares passa por situação semelhante.
Nossa cidade passa no momento por situação delicada. Os médicos, procurando uma união mais forte através de uma seriedade representativa que é a Associação Médica de Londrina (AML), tentam recuperar um pouco da dignidade desta classe de trabalhadores. Nossa ética profissional e moral muitas vezes nos impossibilita de tomar certas decisões, o que torna este trabalho muito difícil. Nosso escasso tempo também é outro fator que nos impede de conseguirmos uma união mais forte e buscarmos aquilo que pretendemos. Portanto, toda oportunidade pacífica, ética e legal de união e reivindicação da classe médica não deve ser desperdiçada. Os doutores Álvaro Jabur e Pedro Garcia Lopes, presidente e diretor da AML, respectivamente, são regentes de uma luta que merece total apoio e atenção da classe médica, não somente a local mas de todo o país - e por que não também do restante de nossa sociedade que será com certeza a melhor beneficiária?
A formação de um profissional médico é difícil não somente pelo aspecto intelectual e emocional mas também pelo aspecto financeiro. O tempo gasto com as atividades de aprendizado profissional e estudo é imenso, e poucas áreas, acredito, demandam tanto tempo para a formação de um profissional.
Tal empenho em nossa área, como em qualquer outra, começa na decisão de quando éramos adolescentes e enxergávamos a carreira que escolhemos com futuro promissor e recompensador da parte emocional e social. A recompensação emocional acontece no dia-a-dia de um médico, no contato direto com o paciente. Entretanto, a recompensação da sociedade, para que ele possa ter em troca para si mesmo e para sua família o respeito, a dignidade e a valorização - itens que tem por obrigação oferecer ao paciente - ainda deixa muito a desejar. Alguns mestres da medicina já diziam que o médico que não for capaz de oferecer o conforto básico social para sua própria família, como atenção, tempo em família e um suporte financeiro em padrões aceitáveis, também não será capaz de ajudar seu paciente em sua plenitude.
Chego na cidade para um começo de carreira e vejo um grupo de médicos mais experientes que lutam para um mínimo de remuneração digna. Ao mesmo tempo encontro um grupo de jovens, disputando o vestibular mais concorrido de nossa Universidade, o de medicina. Tal paradoxo pode ser explicado pela satisfação emocional de ajuda e de contato humano que esta profissão tão nobre nos oferece. Na semana seguinte, presencio jovens médicos formandos entusiasmados com a carreira em momento de festa e alegria. Fico emocionado ao perceber, através do discurso do orador de turma, que os conceitos humanos para com a vida não mudaram na formação médica e acredito que nunca mudarão. Isto ocorre desde o tempo de meu pai, que concluiu sua formação sem os recursos tecnológicos atualmente disponíveis e hoje consegue conciliar a tecnologia com o papel de um médico humano.
Neste momento difícil da saúde em nosso país, muitos outros profissionais, assim como eu, entram no mercado de trabalho com o mesmo ideal de um
recém-formado, mas com uma bagagem de experiência e de formação profissional médica. Devemos lutar para que reconsiderem e revalorizem o ato médico por si só. Independente do recurso tecnológico, para que este ideal de recém-formado permaneça em nós médicos. Portanto, fico entre os entusiasmados formandos que já fui e os experientes profissionais que travam esta honrosa luta. Tenho a certeza de que nem o governo nem os convênios conseguirão tirar de nós tudo aquilo que já nos foi ensinado um dia e que sempre teremos em mente, mesmo em situações temporárias como a atual.
- MANOEL FERNANDES CANEZIN é médico cardiologista em Londrina

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