A Vale no fio da navalha
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de abril de 1997
José Carlos Tibúrcio 
Toda a polêmica sobre a venda da Companhia Vale do Rio Doce demonstra que a oposição brasileira (PT, PMDB, PDT) está apenas fazendo politicagem e mera especulação. Por sua parte, o governo também pode estar equivocado.
Quando os contra usam o argumento de que a Vale é nossa e por isso não pode ser passada para a iniciativa privada - e muito menos para uma empresa estrangeira, conforme afirmam - estão apenas fazendo pura demagogia, numa atitude sem lógica, principalmente num país que tanto lutou pela democracia. Eles esquecem que da década de 50 para cá, 85% da dívida externa foi contraída pelo Brasil para o fomento do governo em todos os seus níveis, e também para ajudar na criação e na expansão das estatais.
Ora, no meio desse embate, pode-se verificar que os contra querem buscar recursos para gerar empregos aqui dentro e desenvolver o país, mas são contrários à venda da Companhia para estrangeiros. Para eles, vale na hora de buscar dólares, mas na hora que o capital estrangeiro se oferece, não vale vir aqui dentro comprar empresa estatal. Temos aí uma incoerente navalha de dois gumes.
O governo, por sua vez, para privatizar as empresas de sua propriedade diz que as estatais são um ônus muito pesado para o país, um cabide de empregos, verdadeiros quartéis da esquerda. Com o fim delas, através da venda, o governo quer matar dois coelhos numa cajadada só. Mas até que ponto estará certo? Será que vale mesmo a pena?
Essas questões não estão sendo bem explicadas. Estará o governo levando em consideração os efeitos colaterais que o negócio pode trazer, não só no aspecto sócio-econômico? Será que o governo considera que se estamos entre os três maiores produtores de minério do mundo, isso não se deve exclusivamente à riqueza do nosso subsolo, mas também aos altíssimos investimentos que fizemos em pesquisa do aço?
Essa pesquisa é caríssima, e para manter o país competitivo, precisa ser constante e cada vez melhor. Mas a iniciativa privada, para continuar este trabalho, com certeza terá que repassar seu custo para o produto final, o que comprometeria o caráter competitivo do negócio. Hoje, como resultado dos investimentos já feitos, temos uma boa relação de custo-benefício nesta área.
A iniciativa privada, diante do dilema, poderá querer que a responsabilidade da pesquisa continue sendo do governo, o que será péssimo para o país, pois continuaremos gastando dinheiro público de forma indevida. O governo continuará deixando de lado seu verdadeiro papel, que é cuidar da saúde, da educação, da segurança e outros setores fundamentais.
Ao mesmo tempo, o governo, não assumindo a pesquisa do aço, com certeza, no futuro próximo, poderá fazer com que a Vale, vendida, seja devolvida sucateada pela iniciativa privada, atrasada, sem pesquisa tecnológica, sem competitividade. Não há dúvida de que quem comprar a Vale vai querer explorar imediatamente e ao máximo as suas quarenta e tantas empresas, para no mínimo recuperar o alto capital investido.
Mais coerente e mais prudente é passar apenas parte do capital da Vale para a iniciativa privada, ficando o governo com pelo menos 30% da Companhia. Como sócio, livra-se do cabide de empregos, dos quartéis da esquerda, diminui seu déficit público. Fazendo sua parte, o governo pode ter voz ativa, controlar um pedaço do negócio, dar sugestões, acompanhar as decisões.
Caso contrário, amanhã poderemos ter que engolir uma Vale destruída, uma Vale diferente da Vale de hoje, uma Vale podre.


