A Vale e o vale
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de novembro de 1996
Luiz Geraldo Mazza 
A forma tranquila como o presidente FHC trata a venda da Vale do Rio Doce dá a nítida impressão de que está se referindo ao ticket do vale-refeição. Parece assunto de lana caprina, como dizem os velhos advogados, questão singela em torno da qual não cabe espanto ou contestação. Infelizmente, alguns dos piores exemplares da fauna política aparecem à frente do movimento que visa contestar esse ato de lesa-pátria, como Sarney e Itamar, e parece que isso confere ainda mais força ao presidente, tal a imagem fossilizada que um certo estilo de fazer política ganhou no País.
Para complicar, Sarney faz a proposta, que projeta o seu senso de valores, de trocar o apoio a favor da reeleição pela desistência de FHC em vender a Vale. Quer dizer: transformou a Vale em moeda de troca e com isso levou o presidente à reação contra a barganha. Se havia algo para dificultar a tese da defesa da Vale os políticos agora arrumaram e além disso ajudaram FHC, que cada vez mais se parece com Luís XIV, a fazer o gênero austero e com isso depurar a decisão antibrasileira como se ela, de fato, expressasse a modernidade.
Um dos alertamentos de militares que conhecem a Amazônia como o ex-ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, é sério: Como vender a Vale se nem sequer dimensionamos as riquezas controladas pela empresa na região?. Ora, aí está, de saída, uma questão que não se tira de letra, como dá a entender FHC com o seu deslumbramento desestatizante.
O senador paranaense Roberto Requião terá papel de destaque na comissão que examinará o tema e sua posição a respeito é conhecida até por ter um formação doutrinária centrada no Iseb, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, dos anos 50, um tanto quanto arcaica, mas que, nesse caso específico, ainda que por outras razões, até se justifica.
Reciclar essas justificativas que tinham como fundamento a Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina, que se lastreava nos conflitos da guerra fria, é uma necessidade, o que não anula objetivamente a legitimidade de arguir a tonalidade do interesse nacional. Insistamos num detalhe: todos citam o Chile como um emblema - logo um país que teve um dos regimes mais sangrentos - em função de sua recuperação econômica e do modelo que passou a configurar na visão de estrategistas. Só que Pinochet se recusou a fazer com as minas de cobre o que pretendem agora com a Vale. É justo pensar que razões altamente logísticas e de caráter geopolítico tenham pesado nessa decisão.
Para os que pretendem vender tudo ao correr do martelo, enquanto se tenta fazer do Brasil com suas dimensões continentais um entreposto de negócios facilitados (e a arrematação, propiciada pelo BNDES, da Light por um consórcio capitaneado por uma estatal estrangeira, é um desses exemplos referenciais), sob os quais perderemos todos os controles em nome de uma liberação que nos fará mais dependentes ainda do que hoje.
BIZARRICE - Quando da guerrilha de Porecatu, na qual se envolveram entre outros o Gregório Bezerra, figura histórica do Partido Comunista, e o João Saldanha, estes ao lado dos posseiros, o advogado Vieira Neto, também uma figura paradigmática do direito e da esquerda, justificava no Tribunal de Justiça um pedido de habeas corpus em favor de alguns combatentes presos.
Lembro da veemência e da picardia como se referia a um militar de São Paulo, a quem chamou de Mac Arthur chicletante e de óculos, e que não sabia que o Paraná não era mais a quinta comarca daquele Estado. Desembargadores vibraram com a ironia do mestre. Mac Arthur foi o general norte-americano que ocupou o Japão e de cara fez a reforma agrária, pois se esperasse ia ficar que nem no Brasil, onde ela só sai na novela das 8.
SPRAY - Criação de Fundo de Pensão do Estado (o governo quer se livrar do pagamento de aposentados e pensionistas e atribuí-lo a outra fonte) é tema bem mais sério do que reforma da educação, na qual o governo quebrou a cara por não saber colocar os interlocutores certos e usar a massa crítica. - Intenção de Lerner é boa, mas esbarra em riscos, pois já houve um golpe durante a gestão Requião com a interrupção do Fundo (a Assembléia, vaquinha de presépio de sempre, que o aprovou quase em seguida o extinguiu com a mesma presteza) e a queima de recursos, o que aparece no dossiê recém-examinado no TRE. - Urge ampla discussão do assunto não apenas entre parlamentares e técnicos, pois o êxito depende do grau de credibilidade. A saída de André Zacharow do BRDE se deu logo após a compra do Palacete dos Leão pelo fundo de pensão daquele banco, o que provocou estranheza e protesto e parece que foi levado ao IPE pela circunstância de ter sido presidente da previdência da Itaipu. Vamos com calma. - Um detalhe: apenas Paulo Pimentel pagou a parte do governo no IPE e isso traduzido nas sedes de Curitiba e Londrina, gestão Juvenal Pietraróia, um paciente cultor de briga de galos. Pra lidar nessa área urge esporão agudo.
FOLCLORE - Quando Paulo Pimentel era governador, a placa do Aqui se trabalha logo na fronteira com o Paraná foi olhada como desestimulante para os migrantes. Essa gozação não chegava a irritar catarinenses, porque já eram maioria aqui desde aquela época.
CROMO - Volta a rotina: o olho do menino de rua colado na vitrine colorida, o nariz esborrachado querendo passar a fronteira vítrea, é Natal, tempo de nivelar-se pelo sentimentalismo, glória do melodramático, humanidade efêmera. Papai Noel é símbolo mais perto do prazer do que o menino Jesus, portanto ajustado aos nossos dias de hedonismo


