A Vale e o seu incrível destino - Léo de Almeida Neves
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de abril de 1998
Léo de Almeida Neves 
O atual maior problema do Brasil, calcanhar de Aquiles do Plano Real, é o desemprego, acrescido dos déficits na balança comercial (US$ 8,5 bilhões em 1997) e no balanço de pagamentos (US$ 35 bilhões), fragilidades econômicas que podem provocar ataques especulativos contra a moeda brasileira.
A Cia. Vale do Rio Doce (mal) privatizada reduziu 30% do seu quadro de funcionários e não deu curso a muitos investimentos como relatei no artigo de ontem. Imagine-se a diferença se a própria Vale estatal conduzisse um processo de privatização de algumas (menos essenciais) de suas 64 empresas controladas ou coligadas, se continuasse a fazer novas parcerias com empresas nacionais ou estrangeiras e se concentrasse recursos nos setores estratégicos e nos de maturação mais rápida, voltados para o mercado externo.
A inoperância da Vale para novos empreendimentos, visto que atuou vegetativamente tocando o que já existia, talvez seja consequência de seus controladores não serem empresários dos ramos da mineração, da siderurgia, da celulose, de transporte e dos demais segmentos que integram a empresa.
Salvo Benjamin Steinbruch, do grupo têxtil Vicunha, considerado o rei do aço e do minério (preside a CSN e a Vale e tem participação na Usiminas, Açominas, CST, telefonia celular Banda B, etc.), os demais controladores são meramente investidores financeiros.
Afinal quem comprou e de onde saiu o dinheiro para abocanhar a jóia da coroa do reinado FHC?
Quem mais entrou com capitais próprios foram os Fundos de Pensão do Banco do Brasil (Previ), da Petrobras (Petros), da Caixa Econômica Federal (Funcef) e da CESP (Funcesp), com R$ 834,5 milhões.
A ex-estatal Companhia Siderúrgica Nacional, como a Vale também criada por Getúlio Vargas, anteriormente privatizada, ficou com 16,30% do lote vendido, equivalente a 39,05% na Valepar e 8,47% do capital da Vale. Interessante que não foi a matriz brasileira da CSN que interveio no leilão e sim suas subsidiárias estrangeiras localizadas nos paraísos fiscais. A CSN Steel Corporation, das Ilhas Cayman, e a CSN Panamá S/A. Essas duas empresas off shore da CSN foram financiadas pelo maior banco norte-americano de varejo, o Nations Bank, com a espantosa cifra de US$ 1,2 bilhão, prazo de um ano, a juros de Libor mais 1,75% ao (Gazeta Mercantil de 9/5/1997). A fusão do Nations Bank como o poderosos Bank America, anunciada em 13/4/1998, resultou no maior banco em depósitos e agências dos EUA.
Além do empréstimo, o Nations Bank entrou de sócio com US$ 400 milhões na compra da Vale, através do seu fundo das Ilhas Cayman denominado Sweet River Investiments Ltda., do qual detém 40% . Outros 40% pertencem ao investidor internacional George Soros, através do fundo Quantum Industrial Partners, e os restantes 20% são do Banco Liberal, cujo vice-presidente na época do leilão era Antonio Carlos Lembruger, ex-presidente do Banco Central do Brasil (Gazeta Mercantil de 8/5/1997).
O Fundo do Banco Opportunity entrou com US$ 800 milhões de dólares, incluindo US$ 100 milhões do City Bank. O Bradesco comprou R$ 500 milhões de debêntures conversíveis de empresas do Fundo do Banco Opportunity. Este integra o Conselho de Administração da Vale com seu representante Persio Arida, ex-presidente do Banco Central do Brasil (Gazeta Mercantil - 10/5/1997).
Aumentando seu domínio na Vale, o Nations Bank adquiriu o Banco Liberal por autorização do Conselho Monetário Nacional de novembro/97, conforme matéria da revista Carta Capital, de 18/3/1998, que acrescentou outras informações: em janeiro de 1998, o Nations Bank concedeu à Vale empréstimo-ponte de US$ 250 milhões, com um ano de prazo, a juros de Libor, mais 1,5% ao ano, em troca da securitização de recebíveis do minério de ferro a ser exportado; o mega-empréstimo de US$ 1,2 bilhão, com vencimento maio/98, do Nations Bank à CSN Steel Corporation das Ilhas Cayman deverá ser renovado por três anos.
Por sinal que o Nations Bank já se relacionava com o sr. Benjamim Steinbruch desde a privatização da Light e da Cia. Siderúrgica de Volta Redonda. O Nations Bank participou em agosto de 1996 de empréstimo-ponte de US$ 335 milhões concedido nos Estados Unidos às norte-americanas Houston Industries e AES, adquirentes da Light, associadas à Eléctricité de France com participação menor da CSN. Mais tarde, em 1997, o Nations Bank emprestou, junto com o JP Morgan, US$ 300 milhões à Companhia Siderúrgica Nacional, por curto prazo, até que ela colocasse US$ 600 milhões em euronotes no mercado norte-americano (Carta Capital, 18/3/1998).
A citada edição da Carta Capital menciona entrevista do sr. Richard Gross, presidente do Nations Bank, ao jornal norte-americano Charlotte Observers em que ele deixou claro que se seu banco conseguisse um papel na venda de pelo menos 30 subsidiárias da Vale em condições de serem passadas adiante, ganharia alguns milhões a mais em honorários, remuneração que considera mais adequada do que a dos juros.
Assim, a Valepar, que adquiriu o controle acionário da Vale no leilão de privatização, afora os 25% da CSN, é constituída por 75% de especuladores financeiros (Previ e outros Fundos de Pensão, Nations Bank, Banco Opportunity, George Soros, Bradesco - indiretamente - , City Bank e outros).
A composição atual das ações da Valepar é a seguinte: CSN Steel Corporation das Ilhas Cayman - 25%, Previ do Banco do Brasil - 25%, Banco Opportunity - 17%, outros fundos de pensão - 14%, Nations Bank - 9%, BNDESpar - 9% e Invest Vale (funcionários da Vale) - 1% (Jornal do Brasil de 15/5/1997).
Sem dúvida, o leilão de privatização da Vale ainda sub-judice constituirá um dos temas centrais da próxima campanha presidencial, não só pela relevância econômica da empresa mas, também, por que o trilionário negócio do milênio envolve questões de segurança e soberania nacionais.
- LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná e ex-deputado federal. Exerceu a diretoria do CREAI do Banco do Brasil e a presidência do Banestado.


