O recuo de Fernando Henrique na venda da Companhia Vale do Rio Doce é apenas e tão-somente político. O presidente não mudou suas convicções de que a Vale, apesar de suas dimensões e importância estratégica, é apenas mais uma estatal que deve ser vendida.
O que o detém neste momento - e o faz submeter ao Senado a privatização da Vale - é a cautela quanto ao movimento de opinião pública que está sendo criado em torno do assunto. Tudo o que o presidente quer evitar, às vésperas da votação da emenda da reeleição, é uma campanha nas ruas, comandada pelos seus principais adversários políticos - Sarney, Itamar Franco, Lula e Brizola, entre outros - contra uma medida de seu governo.
Esse tipo de movimento é altamente inflamável, em que pese o teor pouco atraente da bandeira que o envolve: a venda de uma estatal, na área de mineração. O presidente sabe que, por trás da causa, que mobiliza em sincero clamor cívico ilustres nomes da sociedade civil - como os presidentes da OAB, Ernando Uchoa Lima, e da ABI, Barbosa Lima Sobrinho -, há o jogo político dos interesses partidários.
O que une os políticos que encabeçam a campanha contra a Vale, além da campanha em si, é a luta contra a reeleição. Embora todos neguem, o movimento cívico em torno da Vale é fator de aglutinação política, capaz de estabelecer o elo de ligação entre as diversas correntes adversárias do governo.
Demonstração clara disso, quase um ato-falho, é a declaração do presidente do Senado, José Sarney, admitindo aprovar a reeleição em ‘‘troca’’ da desistência do governo de privatizar a Vale do Rio Doce. Essa troca, segundo ele, seria aceita por muita gente influente dentro do movimento. O presidente Fernando Henrique fez leitura semelhante à de Sarney. Tanto que recuou e admitiu submeter a venda da Vale ao Senado. Daqui por diante, o eixo de gravidade do processo político é a reeleição. Tudo o que a afetar, para o bem ou para o mal, será examinado com a devida pompa e circunstância - pelo governo e por seus adversários.
O presidente sabe que joga todas as suas fichas nessa causa, que, uma vez deflagrada, não tem retorno. Aprovada a emenda no Congresso, o sufoco não termina. É apenas a primeira etapa da luta. No dia seguinte, a campanha sucessória, que hoje se desdobra nos bastidores, estará nas ruas. Ao precipitar o debate da reeleição, o governo precipitou também a discussão em torno de sua sucessão.
Fernando Henrique, haja ou não reeleição, é o presidente que mais cedo - exatamente na metade de seu mandato - preside o processo de sua própria sucessão. Não lhe convém, nessas circunstâncias, que prosperem movimentos cívicos em que seu governo figure como vilão. O recuo na privatização da Vale é estratégico - e provisório.

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