A Vale e a biografia de FHC
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de janeiro de 1997
Léo de Almeida Neves 
O presidente Fernando Henrique Cardoso declarou à imprensa que não vai manchar sua biografia trocando a aprovação da reeleição pela desistência da venda da Vale e do aumento do Imposto Territorial Rural (ITR). Mas, se a Cia. Vale do Rio Doce for transacionada de porteira fechada, na feliz expressão do líder governista no Senado, senador Élcio Alvares, a biografia de FHC ficará irremediavelmente maculada. Para quem não sabe, a venda de uma fazenda (propriedade agrícola), quando é realizada de porteira fechada, quer dizer que faz parte do preço tudo que está lá dentro, ou seja rebanho bovino, cavalos, tratores, caminhões, implementos...
Privatizar a Vale de porteira fechada significa vender as minas de ouro que a empresa já explora, na condição de maior produtora da América Latina, e simultaneamente as suas outras 12 jazidas auríferas de grandes dimensões já pesquisadas, mas que ainda não começaram a ser exploradas. Representa, também, alienar as quase inexauríveis jazidas conhecidas e identificadas de cobre, caulim, bauxita, níquel, manganês, titânio, ferro e de outros minérios pertecentes à Cia. Vale do Rio Doce, sendo que algumas delas sequer principiaram a ser exploradas. E como ficam as centenas de concessões de pesquisa e lavra feitas à Vale e caducas, porque já se exauriram os prazos legais?
Somente com Carajás e as minas em exploração, a Vale exporta um bilhão e meio de dólares (US$ 1,5 bilhão) por ano e lucra 400 milhões de reais. Ela mantém joint-ventures com mais de 20 multinacionais de vários países, como a Nippon Steel - japonesa, a Pasco - coreana, a California Steel - norte-americana...
É evidente, mesmo aos leigos, que se a Cia. Vale do Rio Doce fosse vendida em partes renderia ao governo receita muito maior do que se negociada em bloco. Ex-presidentes da Vale, como Eliezer Batista e Marcos Viana, têm defendido esse ponto de vista e a conceituada empresa de consultoria internacional, A.T. Kearney, que atuou nos processos de privatização de 4.000 companhias no Leste Europeu e na Ásia, sugere que a Vale seja dividida por atividades afins e vendidas separadamente (Gazeta Mercantil, 16.1.1996).
Caso a Vale seja alienada por apenas US$ 10 bilhões, enquanto geólogos avaliam seu patrimônio em até US$ 1,7 trilhão de dólares, o Brasil perderá inigualável oportunidade de resolver seus problemas do endividamento público, interno, que atinge R$ 140 bilhões. Como há dúvidas sobre essas avaliações, a prudência aconselha que preliminarmente se promova, através dos meios de comunicação e nos órgãos representativos da sociedade civil, ampla discussão sobre os valores em controvérsia.
Não se aprofundando o debate, ficará a impressão de que quem comprar a Vale em bloco que vai fazer trilionário negócio com lucros fantásticos, pois vai revender as partes esquartejadas por preços incalculáveis.
Ainda é tempo de
Fernando Henrique
praticar ato de
estadista
Fernando Henrique Cardoso apresenta dois principais argumentos para transicionar a Vale:
1 - amealhar recursos para amortizar a dívida interna;
2 - acelerar o desenvolvimento, trocando empresa estatal pela iniciativa privada, que sabe administrar com mais eficiência.
Note-se que, no primeiro trimestre de 1995, sete das maiores empresas mineradoras de ouro do mundo, norte-americanas, canadenses, inglesas e australianas, apresentam pré-qualificação para se associar à Vale na exploração de dez minas que foram oferecidas à parceria com empresas privadas. Transparece lógico que renderia muito mais para o governo, em numerário e geração de divisas, se essas multinacionais, em livre competição, já estivessem operando aqui. Outras muitas empresas nacionais e estrangeiras poderiam ser atraídas para a atividade de exploração mineral se a própria Cia. Vale do Rio Doce coordenasse um balcão de atrativas ofertas de negócios.
Seria injusto acusar o presidente FHC de orgulho ou vaidade na privatização da Vale, pelo mero intuito de destruir um dos monumentos da Era Vargas; tampouco de submissão ideológica ao neoliberalismo triunfante. Sociólogo renomado, afeito às letras desde a juventude, professor consagrado aqui e alhures, político auto-confiante, Fernando Henrique Cardoso talvez não tenha percebido que a venda da Vale transcende uma privatização comum, e se for mal conduzida poderá manchar seu nome, mesmo na hipótese de conquistar mais um mandato presidencial.
Getúlio Vargas fez jus a insubstituível lugar na história do Brasil, sem necessidade de listar outras realizações, porque editou o Código de Minas, nacionalizando o subsolo, e, depois, criou a Cia. Vale do Rio Doce e a Petrobrás.
Ainda é tempo de Fernando Henrique Cardoso praticar ato de estadista, retrocedendo na decisão de privatizar a Vale ou, se insistir no equívoco, determinar que o processo de venda siga ritmo lento, gradual e seguro, para a correta valorização do patrimônio público. Não o fazendo, FHC poderá comprometer sua imagem de político virtuoso e clarividente, conspurcando definitivamente sua biografia.


