A vaca louca ou a síndrome dos caminhoneiros
Com o passar da história, e mais na pindura de um século ou milênio, cada época traz suas surpresas e novidades, manias e modas, loucuras e doenças, no campo religioso, político e econômico. Sempre foi assim. Sempre será assim. Hoje o grito que está na page, nos jornais, manchetes e noticiários desde Alaska à Terra de Fogo, o prato cheio da globalização do dia é: a vaca louca. Com chifre ou sem chifre, a vaca na sua total dimensão e peso específico, no churrasco, no espeto, no pó, na lata ou na espera glacial do seu descongelamento.
Pedágios e caminhoneiros. Há algo de comum com a vaca louca? Vejamos. Os dois ficam encurralados. As vacas nas cercas e arames farpados das fazendas, no tronco e no corredor da morte. E os caminhoneiros ficam no corredor da morte das estradas e rodovias, em piquetes de 50 quilômetros por 12 metros, confinados na fina malha dos pedágios e sem alternativa de pular, matar, ou morrer. Os dois objetos de especulação, da balança, do poder, do lucro, do gregarismo, da globalização.
As vacas não podem pagar. Elas dão o troco em arrobas de carne para encher a barriga dos pecuaristas, dos ricaços. Os motoristas ficam na arapuca do pedágio que cria neles um estado de ânimo em marcha acelerada para a neurose e a loucura da vaca louca afetando cabeça, tronco, medula e a vida toda, e sobretudo o bolso, obrigando a dar todo o lucro do frete para o saco das empreiteiras e concessionárias.
Se fosse um imposto único por mês ou por ano, como já está embutido no pagamento do IPVA, certo. Mas o pedágio é um imposto que sai e passa 24 vezes por dia do bolso para a mão, da imaginação para a vida real do caminhoneiro, e isso elevado pela potência do número dos eixos. Ele é um virus, é um câncer. Isso acumula doses de revolta, luta, veneno só ando envenenado, dizia um pára-choques de caminhoneiro, clamando justiça pela injustiça.
E como se tudo isso fosse pouco ainda, na hora de dar o preço injusto, na hora de sentir o golpe da faca, o coitado do caminhoneiro fica sendo objeto da maior ironia e sarro sendo obrigado a ler Amigo, sorria, você esta sendo filmado.
Para que mais uma greve de caminhoneiros? E vão vir mais! Caminhoneiros saindo dos trilhos é normal. Eles conduzem as carretas e os bitrens por estradas sem trilhos. Se eles pararem, todo o Brasil vai parar. Eles se sentem longe da família, abandonados pelo governo, explorados pelos impostos, baixo frete e salário, alto custo de diesel, pouco unidos entre si, desamparados, autônomos franco-atiradores.
Eles saíram dos eixos, é lógico. Buscam o apoio de toda a classe até que o governo os atenda. Ninguém faz greve por gosto, ninguém sente prazer em ser forçado a deitar no chão, ser ameaçado por armas, cachorros e polícia, como se fosse um bandido; ninguém planta banana nas estradas na certeza que vai comer uma sequer.
Pedágios: um bem para mal ou um mal para bem? Na década de 90, os pedágios não passavam de 20 0u 25 nas rodovias do Brasil, depois da fracassada experiência do selo pedágio. Hoje aumentaram 100%. Uma indústria que veio para mal de muitos e grande proveito para poucos.
Conheço as rodovias da França, da Itália e da Espanha. Todas elas possuem vias alternativas. Você pode escolher rodovia de pedágio ou estrada livre sem pedágio; e mais, nenhum pedágio é instalado sem ter a estrada toda estrutura de acostamento, sinalização, pontes, viadutos, meio-fio. E em muitas delas há iluminação no trecho.
Vamos dar ouvidos ao grito dos caminhoneiros, antes que o vírus da vaca louca faça a cabeça deles para que todos os que andamos no mesmo barco, ônibus, carro e caminhão não acordemos na sarjeta da rodovia ou no brejo da vaca louca.
- PADRE PEDRO JORDÁ é vigário da Paróquia Nossa Senhora da Glória do Parque Ouro Verde, em Londrina, conhecido com Padre Caminhoneiro e é autor das agendas do caminhoneiro Vida na Estrada
[email protected]





