Os professores das universidades públicas estão em greve e, exceto os líderes de classe, pouca gente está se incomodando com isso. Dentre os alunos, a maioria deve estar viajando. Reclamando mesmo, só os do último ano do curso - e, claro, os filiados a partidos políticos extremistas. Haverá entusiasmo no professorado? Talvez, mas certamente não é unânime o fenômeno. A questão é: porque a sociedade em geral não está participando dessa crise?
Não sei se a resposta é óbvia. Normalmente, o interesse surge do interesse. Logo, com a universidade brasileira não costuma se interessar o tanto que poderia pela comunidade, esta também costuma ignorar aquela. Afinal, se existe (e existe) universidade realizando pesquisa e fazendo extensão desse conhecimento à comunidade, o fato é que são pesquisas e extensões mínimas (nem por isso menos honrosas).
Mais cedo ou mais tarde, o interesse recíproco entre a universidade e sociedade haverá de amadurecer. (Já se tem visto, por exemplo, a iniciativa privada encomendando, ou adotando, projetos de pesquisa - com possibilidade de retorno comercial, sim, porém patrocinando a construção do conhecimento.) E quando atingirmos essa maturidade, a sociedade que custeia a universidade pública (pois estamos falando em universidade pública) se beneficiará da liberdade que o conhecimento permite alcançar. Como carecemos dessa liberdade!
Se pinçarmos um pedaço da realidade social, um pedaço contraditório qualquer, verificaremos a importância das luzes esclarecedoras do saber acadêmico. Basta notar, por exemplo, esse fenômeno crescente dos ‘‘shopping center’’ que estão aparecendo nas cidades de médio e grande porte. Aquilo que viria a ser uma amplificação das ofertas disponíveis num supermercado, tornou-se hoje, graças à cumplicidade publicitária, praticamente um estilo de vida.
De repente, da mesma maneira como a frase ‘‘shopping center’’ abrasileirou-se - e só o dicionário do vernáculo ainda nos lembra que se trata de uma frase estrangeira - os brasileiros assimilaram a ideologia enrustida nesse processo de especialização e diversificação do comércio. Rapidamente, a mídia tem-se encarregado de dizer, ensinar, condicionar, que o lazer de última geração é o lazer desses grandes centros de compras. Apregoa a publicidade que há vida inteligente e criativa dentro desses espaços estruturados finitos. Há, lá, satisfação, sorrisos, alegria, as crianças se divertem, os adultos encontram todos os produtos para atender às suas necessidades. Há, lá, setores de alimentação, cabeleireiros, lojas de roupas, calçados, papelaria, os próprios supermercados, livrarias, restaurantes dançantes e até cinemas.
Será possível que esse lazer seja pleno, integral, totalmente identificado com a natureza humana (desse jeito que a propaganda está dizendo)? Acho difícil. No ‘‘shopping center’’, qual outra natureza se integra com a natureza humana? Os espaços estão carregados de concreto, vidro, acrílico, plantas e até árvores - artificiais (sem falar na luz, igualmente artificial). O que acontece com as glândulas supra-renais quando o ser humano fica por muito tempo nesses espaços fechados, cheios de gente? Não há manual de instruções. O que há é a intenção comercial de que o usuário do ‘‘shopping’’ permaneça lá dentro o maior tempo possível - e, de preferência, consumindo, comprando.
Seria possível um estudo sociológico a respeito dos efeitos desse ‘‘estilo de vida’’ no comportamento humano? Seria. Agora, haveria interesse acadêmico para isso?
No mínimo, a universidade deveria estar indagando acerca de tais causas e efeitos, demonstrando, quem sabe, nocividade da radicalização dessa mudança de hábitos, e daí a mudança de usos e costumes. A agressividade infantil, infanto-juvenil, juvenil, está aumentando terrivelmente. Debite-se isso na conta da deterioração de alguns valores éticos, morais, religiosos, familiares, na conta do tráfico de drogas, e, será que não, na conta desses novos pontos de encontros humanos.
Quantos horas de contemplação da natureza (lagos, bosques, pássaros, mar, montanhas etc.) são necessárias para equilibrar, revitalizar, humanizar, as pessoas? E com quantas horas de estada num desses centros de compras perde-se a paciência, o equilíbrio e o respeito pessoal? A universidade, creio, não se manifestou ainda sobre o assunto.
A universidade está preocupada com a própria sobrevivência, primeiro; a sobrevivência dos seus destinatários-usuários fica para depois.

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