A única saída - Edison Luiz Leismann
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de outubro de 1998
Edison Luiz Leismann 
Fala-se muito da crise nas Bolsas e na saída de dólares do País - e a discussão agora vai esquentar com a vitória do presidente Fernando Henrique Cardoso já no primeiro turno. Muitos acham que isso é uma jogada política, outros brigam com o termômetro, criticando as agências de risco internacional que reclassificaram o Brasil quanto ao risco de se aplicar recursos no País. O que ocorre, na verdade, é a inconsistência nas contas macroeconômicas promovida pela equipe econômica nos últimos quatro anos.
Até 1994, buscávamos 1% do PIB em financiamentos externos, pois o saldo da balança comercial era de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões positivos, enquanto o saldo da balança de serviços era de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões negativos. Os US$ 5 bilhões que faltavam eram financiados via entrada de capitais de longo prazo e pequenas parcelas de capital especulativo.
Com o Plano Real e a condução equivocada do câmbio, inúmeras vezes alertada pelo ex-ministro Delfim Netto, a balança comercial saiu de (+) US$ 15 bilhões para (-) US$ 15 bilhões, ou seja, deteriorou-se em US$ 20 bilhões. Outros US$ 20 bilhões são necessários para pagamento de juros, royalties, seguros, fretes e amortização da dívida externa, tornando nossa dependência de financiamento externo em US$ 40 bilhões por ano. Entre 1995 e 1998, o fluxo de capitais externos para o Brasil foi fácil, mantendo o valor da moeda estável.
Com a crise internacional, a fonte secou. Além de não entrar dólares, os mesmos estão saindo do País com medo da desvalorização do real. Isso ocorre porque quando os dólares entram no País são trocados por reais e aplicados em reais. Caso ocorra uma desvalorização do real, ao reconverter os reais para dólares a perda é proporcional à desvalorização menos os juros recebidos no período. Deve-se, ainda, considerar que esses mesmo dólares poderiam estar sendo aplicados lá fora, embora com taxas menores.
Aliado ao déficit externo temos o déficit fiscal, que consolidado (União, estados, municípios, estatais etc) atinge 7% do PIB (+/- R$ 60 bilhões). É o que se convencionou chamar de déficits gêmeos: o déficit fiscal e o déficit cambial.
Para enfrentar a fuga de dólares, o governo conta com as reservas internacionais, que já foram de US$ 70 bilhões e hoje aproximam-se de US$ 45 bilhões. Caso cheguem a R$ 30 bilhões, o que pode ocorrer logo, a moratória passaria a ser uma questão de dias. Mas a moratória não é a saída. Já passamos por isso.
Outra forma de enfrentar a situação, a curtíssimo prazo, é a elevação dos juros, já efetivada pelo governo. A médio e longo prazo isso significa um tiro no pé ou no coração. A elevação nos juros também não é a saída. O governo deve R$ 320 bilhões. Antes, pagava juros de 20% ao ano e tinha um déficit de R$ 60 bilhões. Pagando 40% ao ano, elevará o déficit fiscal ao nível do impagável.
O socorro internacional - como Malan está discutindo em Washington - se for feito a longo prazo poderia ser uma saída. Desta forma, o ajuste das contas externas seria feito a longo prazo, aliado à privatização e ganhos de produtividade crescentes. Essa não é a saída, pois o socorro internacional, se vier, não virá com empréstimos de longo prazo, nem na quantia necessária (US$ 40 a US$ 50 bilhões). Essa não será a saída (espero que eu esteja errado, pois seria uma saída excelente).
Desta forma, sobrou a única saída. Rápida, eficaz, dura - e arriscada. Estou falando da maxidesvalorização do real em percentuais entre 20 e 30%. Isso fará com que as importações caiam entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões. As exportações aumentarão nos mesmos volumes já em 1999. Aliado a isso, um forte ajuste interno, com o corte nas despesas governamentais nos três níveis de governo através de um programa radical de mudanças administrativas, previdenciárias e tributárias. Caso isso venha a ocorrer, poderemos voltar a crescer ainda em 2000.
Caso não se tomem medidas rapidamente, vamos pagar um preço muito alto, e lembraremos do Plano Real como lembramos do Plano Cruzado. Enquanto isso, vale muito a sequência de recomendações: 1) Poupe, poupe, poupe; 2) Não faça compras a prazo; 3) Caso você tenha dívidas em dólar (comercial) e disponha de recursos, liquide-as; 4) Caso você tenha dívidas de curto e médio prazo, avalie a possibilidade de desimobilizar (vender alguma coisa) e liquidar a dívida (antes que muitos tentem fazer a mesma coisa); 5) avalie a real necessidade daquilo que estiver comprando.
- EDISON LUIZ LEISMANN é mestre em Finanças e professor universitário em Cascavel


