A única esperança
A única
esperança
O presidente Fernando Henrique Cardoso pode cair ainda mais na preferência do eleitorado. Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, diz que a rejeição ao seu governo nas capitais pode contaminar pequenas e médias cidades. As próximas pesquisas de opinião devem reforçar a possibilidade de um segundo turno. Não se deve esquecer, porém, que o sucesso do Plano Real pesará nas eleições de outubro. E que Lula não abocanha todos os votos perdidos pelo presidente.
Mas a crescente rejeição a Fernando Henrique é a única esperança do PT. O Partido dos Trabalhadores encara as eleições de 1998 fragilizado em vários estados, a começar pelo Rio de Janeiro. A militância rachada poderá tirar votos de Lula.
Só um eleitor desavisado interpretaria o desfecho do caso Wladimir Palmeira como um bom sinal para a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. O PT vive nessa campanha a pior crise de sua história. Em 18 anos de existência, o PT nunca feriu tão dramaticamente sua propalada democracia interna. De um lado e de outro. Palmeira desrespeitou um acordo. A direção desrespeitou uma convenção partidária.
No encontro de sábado, em São Paulo, Lula e José Dirceu mostraram à militância petista quem manda no partido. E quem manda quer inaugurar nova etapa de vida do PT. Se querem ganhar eleições, as alianças são inevitáveis, reafirmaram os comandantes petistas. Sem falsos pruridos. Mas ditar regras não é hábito no PT e essa é a consequência mais dolorosa do caso Palmeira. José Dirceu foi chamado de nazista pela torcida organizada em São Paulo. O presidente do partido exigiu respeito, lembrou seu passado e desafiou a dissidência: Enfrentei a ditadura, não tenho medo de militantes.
Até hoje, um dos momentos mais tensos vividos internamente pelo PT aconteceu quando o mesmo Wladimir Palmeira disputou com José Dirceu a presidência do partido. Palmeira ameaçou a hegemonia do grupo liderado por Lula. Perdeu. No Rio Grande do Sul, o PT começa a colher os frutos do desentendimento. Olívio Dutra, há dois meses, estava à frente do governador Antonio Britto. Recentes pesquisas dão Britto com quase 10 pontos de diferença. Lá, como no Rio, como no PT nacional, o espinho é um só: a intolerância e falta de visão de futuro. O vice no Rio Grande do Sul, Miguel Rossetto, é do mesmo grupo de Olívio, contrariando a tradição e o bom senso. Sendo um de cada grupo, os votos se somariam.
O racha no PT nacional está nos números. Dos 524 delegados presentes à convenção em São Paulo, 310 votaram com Lula, 201 contra e 13 abstenções. Aguarda-se agora reclamação de Palmeira na justiça. Palmeira quer que um juiz garanta o que entende ter sido cassado pela direção do PT: o cumprimento da decisão da convenção carioca. Como nada disso combina com o PT, a direção duvida que Palmeira chegue a esse ponto.
O estrago está feito. Se houver litígio, a briga irá aos tribunais. Nada mais desgastante para a candidatura de Lula. Até porque se a rejeição a Fernando Henrique pode crescer, a rejeição a Lula não deve diminuir.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília





