A última revolução do século?
José Carlos Graça Wagner
Fidel Castro recebeu o Papa lembrando da Inquisição na Idade Média, cujos males o próprio Papa reconhece. Mas não lembrou da Inquisição do comunismo, que matou muito mais gente do que qualquer outra ideologia que já tenha aparecido na Terra. No caso de Cuba, serviu para implantar a tirania pessoal de Fidel, apresentada, aos deslumbrados governantes do sul, como demonstração de uma vontade forte de enfrentar o inimigo do norte. A revolução, no início democrática, se tornou tirânica pela intenção de Fidel, de ser o vingador das injustiças sofridas pela América Latina. Se existisse maior solidariedade continental, teria sido impedida a ditadura em Cuba e teriam sido afastadas, bem antes da revolução fidelista, as injustiças que lhe deram causa. Mas, a tal ponto a revolução cubana se transformou em tirania pessoal, que não se sustentará após o desaparecimento físico de Fidel. Tivesse mantido a natureza democrática da revolução, teria sido, pelos seus extraordinários talentos pessoais, líder da maior expressão em todo o continente.
Ao contrário, Fidel assumiu a guerra contra a burguesia de todos os países, acusada, juntamente com a Igreja e com a Forças Armadas, de serem aliadas do ‘‘inimigo’’. Diante da visão de si como ‘‘anjo vingador’’ contra a hegemonia americana, Fidel tornou-se o responsável direto por milhares de mortes provocada pela ‘‘luta armada’’, desencadeada em toda a América Latina, desestabilizando regimes democráticos, provocando, em reação, regimes militares em vários países, e retardando o desenvolvimento econômico. Fidel fez milhões de cubanos perderem 40 anos, no direito de possuírem uma trajetória própria para exercer o seu livre arbítrio.
Mas os cubanos não são de propriedade de Fidel. São filhos de Deus. E disso não podia esquecer o Papa, mensageiro da Paz e o revolucionário do Amor. Não podia perder a oportunidade de ir ao encontro de cubanos, de dar esperanças aos que vivem numa sociedade a qual se impôs o ateísmo em que as famílias foram separadas pela perseguição, e que, além do ‘‘paredón’’, teve de suportar o exílio de quase dois milhões de pessoas que teriam contribuído, mais do que ‘‘subsídios’’ da URSS, para o progresso de Cuba, sem a perda da cultura e tradições. O perfil dos exilados não é de fugitivos, mas de perseguidos, por serem, na mente de Fidel, inimigos da pátria, embora pertencentes a uma classe média profundamente democrática, que havia apoiado a revolução. Mais recentemente, até mesmo trabalhadores arriscaram a vida, na travessia do Estreito da Flórida, em balsas precárias, na busca da liberdade e para tentar ganhar a vida e enviar algo para a subsistência de suas famílias. Não podia o Papa deixar, portanto, de visitar os cubanos.
Pouco importava os motivos políticos de Fidel para consumar o convite. Se precisava de oxigênio para sobreviver, depois que a URSS deixou de fornecer recursos para a luta armada nos países ao sul dos Estados Unidos, e depois de, em pagamento por esses serviços, deixar de enviar recursos adicionais para melhorar a vitrine dos ‘‘índices sociais’’ de Cuba ‘‘revolucionária’’. Pouco importava a intenção de Fidel de obter pela visita do Papa, um esforço indireto para utopia de construir, na América Latina, um ‘‘neo-socialismo’’, que Frei Betto imagina possível, com o uso da infra-estrutura da Igreja Católica no continente, ou ainda de conseguir o reforço na luta contra o embargo americano. A idéia de convidar o Papa não foi algo repentino. Começou quando Frei Betto se lançou à empreitada de escrever ‘‘Fidel e a Religião’’, em 1979. Continuou na reunião de janeiro de 89, em Havana, descrita no livro, também de Frei Betto, ‘‘O Paraíso Perdido’’. Nela, na previsão do colapso da URSS, o PC de Cuba e o PT do Brasil, formularam a estratégia para manter o ‘‘socialismo’’ em Cuba e para conseguir sua expansão para o continente. Se Lula vencesse as eleições presidenciais daquele ano, assumiria o apoio logístico para a sobrevivência do regime cubano. Caso contrário, hipótese admitida expressamente por Fidel, seria formada uma intercontinental socialista, coordenada por Lula, como este reconheceu em entrevista ao Correio Braziliense, em 1994. Foi formado, em 1990, o ‘‘Foro de São Paulo’’, da qual o MST é a ponta da lança, com o objetivo também de trabalhar pela sobrevivência expansão do fidelismo, por mais utópica que seja tal façanha.
Para esse grupo, o convite dao Papa para ir a Cuba poderia ser decisivo, pois nada teria repercussão maior no continente e, inclusive, no mundo, recolocando Cuba como um espécie de Meca da nova revolução católica-socialista. Enfim, uma aparente cartada de mestre.
Mas os que jogam o jogo do poder humano cometem o erro de não acreditar no poder divino. Acham que manipulam a Igreja e chegam até dar a impressão, em certos momentos, de terem êxito.
Se há alguém que enfrenta o colosso americano não é Fidel. É o Papa. Se há alguém que enfrenta o tirano caribenho, não é o embargo americano. É o Papa. Se há um Revolução a ser feita na América Latina é a pregada pelo Papa. Não a pregada por Frei Betto. Se há uma opção verdadeira pelo social não é a de Che, por mais que tenha pretendido lutar pelos pobres. A verdadeira opção pelo social é o amor de Cristo pelos pobres seres humanos, comprovada pela Igreja, através dos séculos, e que hoje é representada pelo Papa que convoca a todos para a solidariedade e não para a tirania dos iluminados. Não é de todo impossível que se escreva outra história, diferente do ‘‘romance’’ imaginado por Frei Betto, pois o homem põe e Deus dispõe. Fidel pode se transformar no Grande Convertido. Pode cair do cavalo, como aconteceu com São Paulo. Seria um primeiro tirano, de índole marxista, a converter-se pelo carisma do Papa, à sua antiga religião, tal como acontece com muitos jovens, que andam por ínvios caminhos, mas voltam à casa do Pai. Será esta a maior Revolução do Fim do Século e, talvez, venha, até, a ser acompanhada pela conversão de Frei Betto e, quem sabe, pela de Frei Boff. Um grande epílogo para um triste novela, comprovando que, de um grande mal, pode se tirar um grande bem.
- JOSÉ CARLOS GRAÇA WAGNER é advogado e coordenador de Assuntos Internacionais do Instituto Tancredo Neves de São Paulo.

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