A última de Menem - Hélio Doyle
A última de Menem
Hélio Doyle
Em alguns círculos, piadas sobre argentinos fazem sucesso. Há muitas, geralmente apresentando os argentinos como egocêntricos, presunçosos, vaidosos e arrogantes. Há algumas divertidas, outras de extremo mau gosto e politicamente incorretas - como são muitas piadas desse tipo, como as de português, por exemplo.
Não vem ao caso discutir aqui se os argentinos têm mesmo o complexo de superioridade que muitos lhes atribuem. Ou se realmente são megalomaníacos. Até porque esses conceitos generalizadores são extremamente perigosos e injustos.
Mas não há dúvida de que os argentinos são governados por um presidente que é um pouco disso tudo, com agravantes: não é um cidadão comum, pois tem sob sua responsabilidade, há dez anos, os destinos de um dos mais importantes países da América Latina.
Carlos Saúl Menem é o megalômano arrogante que governa a Argentina há dez anos. É desses tipos que trocam a história pessoal, a imagem e as convicções políticas por um punhado de poder - ou de dólares. Peronista, chegou a ser preso nos tempos da ditadura militar. Elegeu-se em 1989 com bandeiras populares, derrotando a centro-direita conservadora.
Ele mandou que esquecessem tudo isso quando assumiu a Presidência e passou à direita da direita que havia derrotado. Concedeu indulto aos que haviam assassinado e torturado nos governos militares. Aplicou o receituário neoliberal incondicionalmente. Dolarizou a economia. Destruiu o parque industrial argentino.
No campo internacional, Menem optou pelo alinhamento total e incondicional com os Estados Unidos, que reconhece a Argentina como aliada preferencial. Um dos ministros de Menem chegou a falar, sem medo de ser ridículo, em relações carnais entre argentinos e norte-americanos. Mas o ridículo esteve presente também quando Menem, querendo agradar, ofereceu dois navios para participar da Guerra do Golfo - e agora quer mandar tropas para Kosovo...
Em resumo, Menem praticamente acabou com a soberania argentina. Entregou o país aos Estados Unidos nos campos político e econômico e cumpre rigorosamente o que o Departamento de Estado dos EUA manda fazer, sem receber nenhum grande benefício em troca, a não ser fotos sorridentes ao lado de Bill Clinton (de resto, uma das alegrias de subdesenvolvidos governantes latino-americanos).
Desde o pós-guerra, nunca houve tanta pobreza e tanta miséria na Argentina. O desemprego está em cerca de 15%. As pequenas e médias empresas estão desaparecendo, a recessão não acabará tão cedo.
E há a corrupção, uma das marcas mais fortes dos dois governos de Menem. Há escândalos de todo tipo, de venda ilegal de armas a fraudes bancárias. As privatizações (sempre elas...) foram um formidável manancial de corrupção e irregularidades.
Certamente achando pouco o mal que já fez à Argentina, Carlos Menem ataca novamente. A última piada de Menem - não confundir com as nem sempre felizes piadas de argentinos - é pedir a participação de seu país na Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. A muitos pode parecer que o grande estadista deve estar pensando em mostrar que os argentinos são mesmo europeus ou talvez transferir o país do Atlântico Sul para o Atlântico Norte.
No fundo, Menem criou um factóide pré-eleitoral e quer mostrar aos norte-americanos que continua submisso. Nada contra os argentinos, mas esse Menem é mesmo uma piada.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília





