A turbulência das companhias aéreas
A concessão de mais seis meses à Vasp para que regularize suas pendências junto ao governo federal é apenas mais uma dilatação de prazo do que um indicativo de solução para a endividada empresa. Também o plano de recuperação apresentado pela Vasp, como condição para não ter a concessão de vôos cancelada, não é garantia de que, apenas por ele, tudo seja resolvido. A situação de dificuldades da tradicional companhia aérea acompanha a empresa desde a sua fundação, 70 anos atrás, e de resto este é um estigma que persegue todas as congêneres do mundo. A razão dessas crises é apenas uma: passagens caras e como consequência poltronas subocupadas, no âmbito de um negócio envolvendo equipamentos caríssimos, infra-estrutura operacioanal das mesmas dimensões, pessoal de elevado ganho e custo de manutenção muito alto. Se voar é uma operação de risco, pilotar uma empresa aérea é uma aventura. Mas é sobretudo incompetência estratégica, porque aviões cheios não dão prejuízo, e para enchê-los de gente e de cargas será necessário baixar preços. Quando, no curto período do Plano Cruzado, ocorreu um ''boom'' de desenvolvimento, não havia lugar nos vôos e formavam-se filas na reserva de passagens. Nesse tempo, nenhuma companhia aérea passou dificuldades, e se problemas econômicos continuaram foi porque eles já vinham de anteriormente. Mas, se ocorresse uma continuidade desses meses de euforia, todas as empresas de aviação, e por extensão as demais, estariam salvas. Se o Plano Cruzado não se sustentou, por razões que não incumbe discutir agora, comprovou-se que vôos com todas as poltronas ocupadas eram lucrativos. A rota a seguir não é outra senão a do barateamento da passagem aérea, que hoje é proibitiva e só permitida para uma classe privilegiada ou para aqueles que, pela urgência de suas necessidades, têm de recorrer ao avião. Desde que, em 1933, um grupo de empresários paulistas resolveu fundar a companhia, como forma de expandir seus próprios negócios, a empresa enfrenta dificuldades. Logo no primeiro ano de existência a Vasp vôou baixo e foi pedir socorro aos governo estadual e municipal. A ajuda veio em forma de uma quase encampação, porque o poder público passou a ser sócio majoritário. Os prejuízos continuaram, e com a privatização de 14 anos atrás, quando o grupo Canhedo e os funcionários da Vasp assumiram 60% das ações da empresa, a crise veio aumentando de tamanho, resultando na situação de agora, com dívidas imensas, aeronaves sucateadas e ameaça de fechamento da empresa, outrora sonho dourado dos capitalistas do grande Estado, que certamente não se conformavam com a existência de uma próspera companhia aérea a Varig no Rio Grande do Sul, produto do arrojo de um punhado de gaúchos e que florescia desde 1927. Hoje com 80 frequências diárias, os 2 milhões de passageiros/ano transportados pela Vasp são insuficientes para manter o vôo-de-cruzeiro da companhia. Mesmo com os constantes aportes do Estado os aviões não se mantêm no ar, não havendo dinheiro que chegue. As companhias aéreas poderiam voar pela própria sustentação, sem tantas dívidas e tantos pedidos de socorro, se deixassem de considerar o transporte aéreo um artigo de luxo e o barateassem, assim lotando assentos e porões de carga e saindo da turbulência.





