Algumas medidas adotadas ao apagar das luzes da administração Lerner começam a preocupar o staff do governador eleito Roberto Requião. E com razões de sobra. Segundo fontes ligadas às hostes peemedebistas, a equipe de transição coordenada pelo vice-governador eleito, deputado Orlando Pessuti, vem encontrando resistências de toda ordem, não apenas para impedir o desdobramento de algumas ações como também para tomar pé da situação.
A começar pela questão dos contratos, licitações e terceirizações que os atuais inquilinos do Centro Cívico, mesmo em fase de despejo eleitoral, insistem em levar adiante. Dentre as principais estão as licitações de obras da Sanepar e o plano de terceirização dos presídios. No primeiro caso parece haver uma exigência legal de prazo, mas no segundo os argumentos são frágeis e pouco convincentes. O caminho natural neste estágio dos acontecimentos, faltando menos de 60 dias para a troca do comando, seria da continuidade administrativa sem qualquer obstáculo, afinal, as medidas tomadas agora serão pagas pelo governo futuro. A transição consiste exatamente na troca de informações sobre tudo o que foi feito ao longo dos quase oito anos.
Sob o argumento de ''sigilo'' ainda segundo estas fontes os governistas estariam se negando a fornecer certas informações tidas como confidenciais e que poderiam ser repassadas somente ao governador eleito Roberto Requião. Ora, em primeiro lugar, a medida surpreende pelo fato de que, em se tratando da administração pública, os dados deveriam estar disponíveis não apenas à equipe de transição, mas a qualquer cidadão paranaense. Em segundo que a equipe foi anunciada formalmente pelo governador eleito e, em seu nome, age. O próprio Lerner afirmou que a transição se daria sem transtorno, afinal, a sociedade não pode ser a grande derrotada numa troca de governo que ela definiu e escolheu seus representantes.
Pesa contra o governo Lerner uma série de irregularidades que não foram devidamente apuradas. Os Jogos da Natureza; as operações do Banestado Leasing; os gastos excessivos em propaganda, além do suposto favorecimento a determinadas agências de publicidade; a falta de justificativas convincentes para a privatização da Copel e que acabou sendo abortada por pressão popular; os incentivos fiscais às montadoras de automóveis; as concessões para exploração das rodovias; a privatização do Banestado; são apenas alguns tópicos que permanecem sem resposta.
Ao que consta, as informações requeridas pela equipe de transição não têm por finalidade fazer qualquer mérito de julgamento, mas apenas aquilo que de alguma forma poderá interceder no cotidiano da máquina administrativa do Estado. Acontece que uma informação, em dado momento, pode se transformar numa espécie de fio da meada e conduzir o que parecia ser uma inocente resposta em valiosa dica capaz de elucidar um escândalo de gigantescas proporções.
Aliás, justiça seja feita ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Durante o processo eleitoral ele se manteve como um verdadeiro magistrado, não favorecendo em nenhum momento a candidatura do senador José Serra. Agora, após a vitória de Lula, os petistas só não têm participado mais diretamente das decisões de governo por uma questão de estratégia política. Afinal, dizem eles, o PT assume apenas a partir de 1º de janeiro próximo.
O mesmo deveria se dar aqui no Paraná. Não é concebível que medidas envolvendo o comprometimento financeiro sejam tomadas sem aquiescência do futuro governo, salvo em casos de calamidade pública. A sociedade merece respeito e se o governo que se despede não foi suficientemente capaz para realizar estas obras em dois mandatos, não pode agora apressar os fatos e querer empurrar goela abaixo uma série de ações que pairam dúvidas quanto à lisura ou mesmo a necessidade em executá-las a toque de caixa.
Um governo não pode agir como fosse um condomínio de interesses pessoais nem um clube de amigos que se reúnem para partilhar e usufruir as vantagens e benesses. Por isso os eleitores paranaenses optaram por mudança.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

mockup