A tragédia dos erros
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de abril de 1999
Rubem Azevedo Lima 
A maledicência política toma ao pé da letra, e no pior sentido, o compromisso assumido pelo presidente Fernando Henrique, antes de reeleger-se em 1998, segundo o qual ele resolveria o problema do desemprego, se reeleito fosse. Talvez por isso FHC tenha mexido, agora, em seu grupo de auxiliares, como quem ajeita a posição da mobília na sala. Mas só mudou os móveis de lado, mandando as peças que sobraram para outra sala. Fulano substituiu sicrano, que foi para o lugar de beltrano e esse ganhou uma sinecura no exterior. Foi um infértil combate ao desemprego.
Ficou a impressão de que no governo FHC há sempre lugar para mais um amigo e nenhum deles perde o emprego, embora a taxa de desempregados no País venha batendo todos os recordes. Não importa que os homens do presidente errem e dêem prejuízos. Como fizeram os do Banco Central, que especularam com o dólar, estourando o Banco do Brasil em R$ 7,6 bilhões. A viúva paga a conta.
No apagão que deixou parte do Brasil às escuras, à repórter que lhe indagara se tal fato não fora causado pelas privatizações no setor de energia elétrica, o ministro respondeu que o acidente ocorrera nas linhas de distribuição de Itaipu e Furnas, duas estatais. Nenhuma empresa privatizada - afirmou - tinha nada a ver com o apagão. Mas, apesar das injustas e apressadas suspeitas ministeriais, a responsabilidade pelo acontecimento fora de uma agência privada de controle de sistemas. O ministro, que, no escuro, culpara suas estatais, ficou no cargo.
Querem mais? Há órgãos do governo incumbidos de fiscalizar as empresas privadas de telecomunicações. Pois as falhas e abusos do setor só foram punidos pelo Ministério da Justiça. Ainda bem. Nada, porém, aconteceu aos que se omitiram.
O caso do bombardeio contra a Iugoslávia fez o Brasil parecer terra em que muitos mandam e ninguém sabe ao certo as ordens que valem. Após as primeiras bombas da Otan, o ministro Lampreia, do Exterior, apoiado por sete chanceleres dos países do Grupo do Rio, condenou o bombardeio por violar a Carta das Nações Unidas. No dia seguinte, o representante brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, embaixador Celso Amorim, votou a favor dos bombardeios. Afinal, somos a favor ou contra as bombas?
No Senado, há o caso das CPIs propostas pelos aliados mais leais ao governo. Serão investigações para valer, que abalem a pasmaceira geral, de um tempo sem ética, ou jogos malabares para distrair a platéia? Ao falar do tráfico de drogas, FHC aludiu às CPIs e, sorrindo, reclamou dos aliados. Mais risível, porém, foi a ordem tardia ao Banco Central para investigar a si mesmo e aos outros bancos.
Até os ghost-writers de FHC entraram nessa comédia de erros: deram-lhe idéias de Rousseau e Voltaire, para ele usar nas críticas ao corte de recursos na área social. Logo Voltaire! Autor de um Tratado de Tolerância, que pediu à polícia, na moita, antes da revolução francesa, a prisão de uma pobre trapeira bêbada, por tumultuar a rua em que ele morava. E Rousseau! Que escreveu o Emíllio, para educar crianças, mas pôs as suas na roda dos expostos. E ensinou decência, no Contrato Social, mas - lembra Jardiel Poncela (La Tournée de Dios) - viveu, ele mesmo, cinco anos à custa da sra. Warens. A tragédia do Brasil são suas comédias.


