A tragédia dos comuns está nos postes
Para uma operadora, instalar um cabo significa atender um cliente e gerar receita. Retirá-lo quando perde utilidade custa dinheiro e não gera retorno
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quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Para uma operadora, instalar um cabo significa atender um cliente e gerar receita. Retirá-lo quando perde utilidade custa dinheiro e não gera retorno
Giacomo Balbinotto Neto 
Basta caminhar pelas ruas das grandes cidades brasileiras e olhar para cima. Em muitas ruas, os postes quase desaparecem sob fios, cabos e emendas. Alguns estão em uso; outros parecem abandonados. A cena se tornou tão comum que quase deixamos de percebê-la.
Mas aquele emaranhado conta uma história econômica. É uma versão urbana da tragédia dos comuns. Em 1833, William Forster Lloyd mostrou, com o exemplo de uma pastagem compartilhada, como decisões vantajosas para cada indivíduo podem degradar um recurso de todos. Em 1968, Garrett Hardin popularizou essa lógica.
A lição ajuda a entender nossos postes. O espaço é limitado, mas precisa acomodar redes de várias empresas. Para uma operadora, instalar um cabo significa atender um cliente e gerar receita. Retirá-lo quando perde utilidade custa dinheiro e não gera retorno. Se a fiscalização é difícil e a responsabilidade pouco clara, o incentivo é previsível: instalar compensa; retirar, nem sempre. O resultado está diante dos olhos: cabos se acumulam, a manutenção se complica e a paisagem urbana se degrada. Para cada empresa, deixar um fio pode representar pequena economia. Quando muitas fazem o mesmo, a cidade recebe a conta em termos de poluição visual.
Não faltam regras. Há vários agentes envolvidos — empresas, distribuidoras de energia, Aneel, Anatel e poder público. O desafio é fazer a estrutura de governança funcionar: identificar responsáveis, fiscalizar e cobrar resultados de modo efetivo e com segurança jurídica dentro de um prazo razoável.
Elinor Ostrom, Nobel de Economia de 2009, mostrou que a tragédia não é inevitável. Regras claras, usuários identificados, monitoramento e responsabilização podem preservar recursos compartilhados. Nos postes, a solução começa por uma regra elementar: todo cabo precisa ter dono, e todo dono deve responder pelo cabo que abandona. Fios sem uso precisam ser retirados em prazo definido, e abandoná-los deve custar mais do que removê-los.
Da próxima vez que passar por um poste sufocado por fios, olhe para cima. Ali está uma pequena aula de economia urbana: benefícios privados, custos compartilhados e responsabilidades dispersas. Cada fio abandonado parece não pertencer a ninguém. O emaranhado, porém, pertence a todos.
Giacomo Balbinotto Neto, professor de economia da UFRGS
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