A tragédia do menino que sonhava em domar leões
Pelos relatos de familiares e profissionais do Conselho Tutelar, ele passou anos vivendo no seu mundo imaginário
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quinta-feira, 04 de dezembro de 2025
Pelos relatos de familiares e profissionais do Conselho Tutelar, ele passou anos vivendo no seu mundo imaginário
Edinelson Alves 
“Homem invade jaula e é morto por leoa no zoológico de João Pessoa”. Esta manchete estampada em jornais ganhou, nas redes sociais, comentários levianos, que insinuavam que essa ocorrência era parte de um plano suicida, afinal, ninguém em sã consciência invade a jaula de um felino feroz achando que vai sair de lá com vida. A ação tresloucada de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, conhecido como Vaqueirinho (pela grande paixão por animais), foi o último ato de uma vida marcada por tragédias.
A mãe dele sofre de transtornos mentais graves. Por isso ela perdeu a guarda dos 5 filhos quando eles eram pequenos. Quatro foram adotados por famílias da capital paraibana, mas Gerson não, pois desde muito cedo apresentava transtornos mentais. Ele passou a infância e adolescência sob os cuidados do Conselho Tutelar, sempre fugindo das casas de acolhimento. Ao todo, pela prática de pequenos delitos, teve 16 passagens pela polícia, 10 delas ainda menor de idade. Depois que complementou 18 anos, perdeu o direito ao acolhimento como menor e a situação dele se agravou.
Com apenas 10 anos foi encontrado pela Polícia Rodoviária Federal caminhando sozinho às margens de uma BR. Uma prima relatou que ele sempre andava em busca de aconchego e de atenção. Muitas vezes procurava a mãe querendo amor e carinho, mas ela também precisava de ajuda e não tinha muito o que oferecer. Pelos relatos de familiares e profissionais do Conselho Tutelar, ele passou anos vivendo no seu mundo imaginário, e sempre repetindo que um dia iria para a África domar leões e outros felinos.
Na Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, Gerson era uma figura bem conhecida, e os agentes expressaram pesar por sua morte. O diretor da unidade, Edmilson Alves, declarou que Gerson enfrentava “graves problemas de saúde mental em decorrência de uma esquizofrenia severa”. Ele ainda acrescentou que a morte precoce dele “era uma tragédia anunciada. O raciocínio lógico se assemelhava à de uma criança de 5 anos. O lugar dele não era na prisão. Para que ele não se rebelasse fazíamos troca, inclusive dando bombons para acalmá-lo”. Uma prima contou que após deixar a prisão Gerson cometeu dois pequenos delitos na tentativa de voltar ao presídio. Ele dizia que preso se sentia mais seguro; nas ruas, temia apanhar por conta dos pequenos crimes.
No âmbito de um processo criminal, após Gerson Machado quebrar o portão do Centro Educacional de Adolescentes (CEA), em João Pessoa, o juiz Rodrigo Lima relatou, baseado em laudo pericial, que ele tinha esquizofrenia e que, por isso, “era inteiramente incapaz de compreender o caráter criminoso de seu ato”. Gerson foi classificado como inimputável devido aos problemas mentais, e pela gravidade de seu caso o juiz determinou que ele fosse internado para tratamento psiquiátrico já que o atendimento ambulatorial era insuficiente.
Em nota, o Grupo de Pesquisa e Extensão Loucura e Cidadania da UFPB – Universidade Federal da Paraíba – criticou duramente as omissões e precarização dos serviços e das relações de trabalho na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de João Pessoa: “Sem família, sem rede de apoio, sem o devido funcionamento e estrutura das políticas públicas para dar conta da situação complexa de uma pessoa em um quadro de extrema vulnerabilidade social, Gerson sobreviveu como pôde”.
Evidências e relatos dos familiares, dos profissionais das casas de acolhimento, do diretor do presídio e do juiz apontam que Gerson deveria ter sido internado para um tratamento profissional de acordo com suas necessidades. Para quem acreditava que o presídio era o local mais seguro, a invasão da jaula da leoa foi, lamentavelmente, o seu último grito por socorro.
Edinelson Alves, jornalista


