A tragédia cotidiana
O problema não é uma exclusividade londrinense ou paranaense. As mortes e as lesões incapacitantes provocadas por acidentes de motocicleta há muito se tornaram um desafio para as autoridades em todo o País. É um das faces mais nefastas do modelo de transporte individual que marca a sociedade brasileira nestas primeiras décadas do século 21.
O aumento do poder aquisitivo das camadas mais pobres da população, os sistemas viários acanhados e sobrecarregados e a precariedade do serviço público de transporte, especialmente nas médias e grandes cidades, foram fatores que abasteceram um verdadeiro "boom" nas vendas de motocicletas, veículos motorizados mais acessíveis e mais ágeis. De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o número de motos saltou de 4 milhões no ano 2000 para 17 milhões em outubro deste ano, o dado mais recente, crescimento, portanto, de 325% no período.
Em reportagem publicada nesta FOLHA no sábado, urge uma informação perturbadora e suficiente para inspirar as autoridades a elaborar uma campanha específica de orientação aos motociclistas: 54% dos mortos no trânsito de Londrina usavam o veículo popular para se locomover. É a primeira vez que a tábua de mortalidade no trânsito é dominada por motociclistas, um dado ainda mais preocupante levando-se em conta que a frota de carros permanece bem mais numerosa na cidade. O número de 51 mortes de motociclistas registradas até o fechamento da reportagem é idêntico ao número total de mortos do ano passado, uma escalada sangrenta e inaceitável.
A pressão da sociedade sobre os governos neste assunto ainda é débil e talvez explique a falta de atenção com o tema, fato cada vez mais inexplicado se considerada a tragédia cotidiana, que abala famílias e que ceifa vidas em plena idade produtiva.
Um exemplo do descaso em relação à ações preventivas do poder público é a estatística que aponta que em 10 estados brasileiros o número de motoristas habilitados a guiar motocicletas é menor do que a frota circulante. Em alguns casos, como no Maranhão, o número de motos é o dobro do total de carteiras. Um flagrante de como todos os cidadãos estão expostos a condutores despreparados e irresponsáveis.





