A tradição da Páscoa - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de abril de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Não há dúvida, o Plano Real funciona. Pensei isso durante a minha batalha campal travada nas Lojas Americanas, em busca de ovos de Páscoa. Esses objetos de desejo forravam o teto de fora a fora do recinto, e pareciam se estender por quilômetros de esteira colorida, conforme meu cansaço e dor nas costas. Juntamente com a multidão que se acotovelava e se espremia entre os estreitos corredores ladeados por prateleiras de mercadoria, eu levantava as mãos para agarrar aquelas formas atraentes envolvidas em papel brilhante. Era a saudação dos consumidores, todos de braços para o alto formando uma unidade humana compacta e igualada momentaneamente pelo mesmo gesto e aspiração: levar para casa os gostosos ovos de Páscoa.
O calor foi se tornando insuportável sob as grutas de chocolate, na medida em que eu circulava pela Loja dando sofridas e intermináveis voltas em busca de ovos convenientes para os diversos gostos da família. E enquanto verificava o tamanho e o preço de Sonhos de Valsa, de Serenatas de Amor, de Diamantes Negros, ia inadvertidamente espetando minha irmandade consumidora com o guarda-chuva, peça inconveniente que teimava em se enroscar nas pernas das pessoas. Isto provocava, como seria de se esperar, alguns resmungos ao meu redor.
Finalmente, depois de um longo e penoso tempo passado na fila, que não deixava nada a desejar as que se formam no Banestado em dia de pagamento, cheguei ao caixa sobraçando uma pesada cesta. Dali, depois de pagar mais do que poderia gastar, sai para o ar livre sobraçando duas imensas sacolas que se arrastavam pelo chão. Então, percebi, enquanto o suor me descia pela cabeça, que aquilo em síntese era a substituição do Papai Noel pelo coelhinho da Páscoa. Mas o que é mesmo a Páscoa?
Em casa, já refeita da luta, fui em busca do significado da comemoração. Ele me voltou primeiramente em forma de recordações puramente festivas. Nas dobras do passado de minha religiosidade católico-mineira, a grande mesa estava posta. O círio pascal fora aceso e um murmúrio de orações se elevava aos céus. Indiferente ao simbolismo e à transcendência, meu olhar de menina buscava os cobiçados ovos espalhados cuidadosamente sobre a impecável toalha de linho branco. No fundo eram eles, sempre eles, esses ovos embalados em papel alumínio brilhante, que coloriam a superficialidade religiosa das crianças e adultos, se interpondo entre a tradição mal-explicada e as camadas profundas do sagrado que habita o coração humano. Mas o que é mesmo a Páscoa? É essa celebração exclusivamente cristã? De onde derivou o termo? O que significa cordeiro pascal? Não há nada que não esteja nos livros. E mais uma vez a eles recorri como fonte de inspiração e conhecimento. Não tardou muito e a explicação surgiu no livro Para Entender as Religiões, coordenado por John Bowker:
A palavra Páscoa vem do hebraico Pessach e significa passagem. Comemora o êxodo dos hebreus do Egito, e sua travessia pelo mar Vermelho guiados por Moisés. O termo Pessach está ligado a décima praga do Egito, quando os primogênitos dos egípcios morreram e o anjo exterminador passou ao largo dos lares judeus. A morte de um carneiro é associada ao Pessach; durante a décima praga do Egito, os judeus mataram carneiros e esfregaram seu sangue nos umbrais das portas, e assim o anjo exterminador poupou suas casas.
Alimentos simbólicos são servidos no Seder de Pessach, a refeição ritual. Entre eles encontram-se ervas amargas, que simbolizam o amargor da escravidão no Egito; ervas verdes, associadas à primavera; um ovo, símbolo de vida nova; um pernil de cordeiro, simbolizando o cordeiro do sacrifício; água salgada, lembrando as lágrimas dos hebreus; e uma mistura de maçãs, nozes, canela e vinho como uma lembrança do pilão usado no trabalho forçado dos judeus no Egito.
Nos dias do templo de Jerusalém, o Pessach comemorava o início da colheita da cevada. Sete semanas mais tarde, o Shavuot, a segunda festa de peregrinação, celebrava a oferenda dos primeiros frutos e o recebimento da Lei por Moisés no Monte Sinai.
Este simbolismo foi transposto e adaptado pelo cristianismo originado na tradição judaica. Os cristãos crêem que Jesus, um judeu, seria o Messias, o Filho de Deus encarnado que veio ao mundo para restaurar o poder do seu Pai e livrar os homens do pecado. Ao morrer na cruz, Jesus teria ressuscitado e prometido que o Espírito Santo viria para consolar os que ficaram. Isso teria acontecido com a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, coincidindo com a festa judaica do Shavuot, chamada Pentecostes em grego, quando então se celebra a Páscoa cristã cinquenta dias após a ressurreição.
Mesclam-se assim as crenças, que sem dúvida remontam a tempos imemoriais como os do Egito Antigo em todo seu esplendor. Então compreendi o simbolismo de uma nova vida expresso pelos ovos de chocolate, e consciente dele desejo a todos, independentemente de suas religiões, feliz Páscoa.


