A Terra continua azul - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 1998
J. Roberto Whitaker Penteado Um mundo real é o suficiente. 
- George Santayana
Em recente seminário, na Escola Superior de Propaganda e Marketing, o professor Renê Armand Dreifuss - autor do famoso 1964: A conquista do Estado - explicava aos participantes uma subdivisão semântica do conceito de Globalização. Para Dreifuss, uma única palavra não é suficiente para cobrir todas as implicações do movimento global - e corre o risco de ficar sobretaxada com significados indesejáveis. Um deles, por exemplo, é de que o termo possa ser o sucedâneo dos antigos imperialismo, colonialismo e outros ismos que disfarçam a antiga exploração das nações pobres pelas nações ricas.
Dreifuss propõe mais duas palavras: mundialização e planetização.
Dentro dessa ordem de idéias, a globalização seria o aspecto econômico, as atividades de produção e distribuição de bens em escala mundial; a mundialização, a diminuição das distancias entre os homens, resultante da evolução tecnológica das comunicações e a planetização a visão da necessidade de soluções planetárias para os problemas que envolvem a humanidade inteira.
De fato, não existem esses três fenomenos isoladamente, nem o mundo vai incomodar-se com isso e passar a usar os termos do professor Dreifuss a partir da semana que vem só porque eles foram inventados. A comunicação é uma invenção humana para descrever as idéias, que são abstratas. Mas eles ajudam a pensar sobre o tão falado fenômeno da globalização.
Que também não é um fenômeno, em si, mas um modo de ver a realidade. Por exemplo, quando a terra ainda era um frio fragmento de estrela, povoando-se de vegetais e animais, na ante-sala das civilizações, éramos sem dúvida um fenômeno global, inteiro e, digamos, indiscutível - até porque não havia ninguém para discutir o que quer que fosse. As divisões do planeta foram surgindo da misteriosa fragmentação tribal dos nossos antepassados, que resultou na divisão política registrada nos Atlas dos nossos ginásios, onde cada país é representado por uma cor particular, contida por traços firmes determinando fronteiras que, na verdade, só existem na imaginação de quem as criou.
Acho que esse processo de globalização - mundialização ou planetização, como se queira - começou, mesmo, no já distante ano de 1961, quando o astronauta russo Iuri Gagarin viu-se, no espaço, a pouco menos de 300 km de altitude, a contemplar nosso planeta e exclamou, emocionado: a terra é azul!
Hoje - tendo visto tantas fotos da terra, tiradas da lua, pelo pessoal da NASA - podemos imaginar claramente a sensação daquele pioneiro, ao contemplar a esfera azulada em que vivemos. De fato, não faz muito tempo, eu estava, de madrugada, passando o controle remoto de um canal para outro - da TV a cabo - quando sintonizei o programa da NASA. Era uma visão de um satélite, que deslizava na estratosfera filmando o nosso planeta. Nada mais; nenhum texto, som ou legenda. Contemplei tudo, fascinado, durante bem mais de uma hora. E a sensação maior que experimentei - e certamente não esquecerei - foi a minha absoluta incapacidade de reconhecer qualquer coisa: nenhuma cidade, nem país, continente, mar, rio ou oceano. Em dado momento, acreditei ter reconhecido a Península Árabe, mas não tenho certeza...
Àquela distancia, em que viajava o satélite, a terra não é, propriamente, azul, mas azulada e temperada por tons de amarelo, marrom, verde... O importante é que guarda pouquíssima, quase nenhuma semelhança com o mapa mundi dos livros de geografia.
Que é ponto que gostaria de ressaltar: o real - globo, mundo ou planeta - é aquele visto pelos olhos mecânicos do satélite - ou os biológicos, dos humanos que voaram tão alto: uno e azulado. Não é o dos livros escolares, nem o político que ainda assombra a cabeça de muitas pessoas. E, se alguma coisa deve mudar, são, exatamente, os livros e as cabeças das pessoas.


