A teoria na prática é outra - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de março de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Muitas vezes a boa intenção não basta, pois na prática acaba distorcida. Exemplo disto foi a legislação que visava proteger o trabalhador rural, mas teve como resultado transformá-lo em bóia-fria, sendo provavelmente responsável hoje por parte do contingente dos sem-terra. Igualmente as leis que objetivaram resguardar o trabalhador urbano, pelos exagerados encargos sociais, induzem nesse momento os empresários a empregar menos gente, terceirizar serviços, não registrar seus empregados ou os registrar de forma burlada. Portanto, o que começou com a Consolidação das Leis do Trabalho, CLT, dos tempos da ditadura Vargas, atualmente se configura como uma das causas do desemprego. Ora, o desemprego leva ao emprego informal onde, um avesso dos propósitos da CLT e de outras legislações populistas, obtidas inúmeras vezes através da pressão dos sindicatos, nenhuma proteção é dada ao trabalhador.
Portanto, o atual fenômeno do desemprego no Brasil, que também se liga aos juros altos, ao excesso de impostos, a burocratização aos regulamentos, o que conduz o empresariado à estrita dependência do Estado, não pode ser debitado na conta da globalização e do neoliberalismo. Nosso desemprego tem origem bem anterior aos dias que ocorrem, e foi sedimentado na cultura brasileira onde sobressai o improviso, a demagogia, o Estado paternalista e patrimonialista, o desejo de lucro com um mínimo de esforço, e um vezo esquerdizante bem latino-americano de exuberantes traços nacionalisteiros e estatizantes, que sempre se opôs aos ventos do capital internacional.
Observe-se que a mencionada mentalidade brasileira de ganhar muito com um mínimo de esforço, que sempre levou a preferir caminho fácil da especulação e de outros artifícios pouco edificantes, traz agora para muitos, numa economia estabilizada como a dos países mais adiantados, dificuldades sem conta tanto no setor público quanto no privado. Por isso, tem gente a suspirar pelos cantos com saudades da danosa, asfixiante e aviltante inflação.
Mas se no Brasil a teoria na prática é outra, isso se deve também a nossa psicologia coletiva que nos faz ir de 8 a 80. Não costumamos ter comedimento, o que significa que somos muito emocionais e pouco objetivos. E essa oscilação inviabiliza as boas intenções e se reflete em todas as áreas, inclusive na da educação.
Com relação a educação, recorde-se que antes se criticava a elitização da universidade, que selecionava com base na competência e só absorvia alunos de renda mais alta. A mudança no sistema do vestibular, que facilitou a entrada de um número bem maior de estudantes de camadas sociais de poder aquisitivo mais baixo, e a cópia do sistema de créditos das universidades americanas, que aparentemente facilitou a vida de professores e alunos, foram medidas tomadas em nome de uma democratização da universidade. O resultado, porém, foi o da massificação. Sem estrutura e infra-estrutura para suportar a quantidade, a qualidade universitária se degradou e a decantada democracia se converteu numa ilusão, pois para alunos de renda mais baixa, esse tipo de universidade não oferece a igualdade de oportunidade própria dos sistemas democráticos. Sem prepará-los adequadamente não eleva seu status, não os adestra para enfrentar mercado de trabalho das profissões mais conceituadas e mais bem remuneradas.
Mas se a educação é falha em teorias, será possível aprender com a experiência concreta? Robert J. Samuelson diz que sim num interessante artigo publicado pela revista Exame de 25 deste. Ele afirma que o dia-a-dia ensina bem mais do que os cursos regulares, e explica que apesar de estudantes americanos do segundo grau terem ficado em termos de conhecimento de matemática em 19º lugar, e em ciências na 16º colocação perante 21 países estudados, a economia norte-americana vai muito bem. Isto significa que as pessoas não aprendem só na escola, e que conta muito o que elas fazem no trabalho. E o que elas fazem? Samuelson coloca as seguintes indagações: Elas fazem uso total de suas habilidades? Adquirem conhecimentos novos? Estão comprometidas com seu trabalho?
Nos Estados Unidos, por causa do tipo de cultura, as respostas a essas perguntas são tão positivas que anulam os maus testes e as más escolas, e isto é demonstrado na pujança da economia norte-americana, a mais liberal e globalizada do mundo. Entre nós, porém, com honrosas exceções, as respostas não são tão encorajadoras.
Na verdade, começa haver no Brasil, por parte dos empregadores, uma certa obsessão por qualificação. O problema é que se exige às vezes um conhecimento impossível, que será desnecessário para determinado emprego. Além disso, poucas pessoas conseguem fazer uso total de suas habilidades no trabalho e, especialmente as de nível superior costumam trabalhar aquém da sua formação. Também não é comum adquirir-se novos conhecimentos no ambiente de trabalho, que geralmente é embotante. E aí está a acachapante prova de que entre nós, de forma prejudicial, a teoria na prática é outra.


