Nas campanhas políticas que preparam a emergência de novos prefeitos e vereadores em todo território nacional, nota-se um certo cansaço cívico por parte do eleitorado. Esta espécie de estresse político aparece sobretudo em cidades onde, conforme pesquisas do momento, resultados apontam para uma porcentagem elevada de votos nulos e brancos, e de eleitores indecisos.
Estes últimos, em sua maior parte representam os desgostosos com a onda de corrupção que varre as instâncias do poder público, os descrentes das instituições políticas bombardeadas pela repetida insistência com que se propala uma mal explicada crise, os desconfiados com relação a eficácia da democracia.
Só uma pequena parcela dos que ainda não definiram o voto é composta pelos que pretendem estudar melhor os candidatos para depois se decidirem. Dentro da lógica eleitoral, tanto estes quanto os indecisos por cansaço cívico geralmente acabam se definindo em favor de alguém no decorrer da campanha, especialmente se acontecer o segundo turno, essa manobra da burocracia política tão desnecessária e pouco inteligente.
Mas de qualquer modo, é bom refletir se vale a pena abrir mão nesse momento da nossa história da escolha que, nos sistemas democráticos faculta ao povo a delegação de poder àqueles que decidirão em seu nome. Neste sentido que se discuta a importância do voto, a qual por sua vez se liga intrinsecamente a necessidade de votar bem.
Recorde-se, então, que se há desgostosos e frustrados diante dos descalabros do poder, é preciso compreender que se existem corruptos fomos nós, enquanto povo, que os elegemos. Se duvidamos de nossas instituições, por serem elas de modo geral fracas e incompetentes, isso resulta da apatia, do conformismo e da indiferença populares, sentimentos que permitem o mal funcionamento das estruturas políticas e econômicas em nossa sociedade. E se a democracia no Brasil de contratos sociais é frágil, isso se deve ao fato de que não soubemos construí-la enquanto Nação, nos deixando sempre contaminar pelo vezo autoritário.
Na verdade, somos ludibriados facilmente por personalidades caudilhescas, por demagógicos salvadores da pátria que a partir do Estado paternalista simulam de tudo nos prover sem nada ou quase nada nos dar.
Mas é necessário que não nos deixemos mais iludir por falsas promessas, por retóricas eivadas de mentiras. E preciso sacudir de nossa cultura essa mania de atribuir a alguém ou a alguma coisa nossas mazelas, nosso atraso, nossa pobreza, nossa incapacidade política traduzida no voto mal dado ou simplesmente não dado. Cultivar supostos responsáveis por nossos males como Cristóvão Colombo, a Revolução Industrial, o FMI e outras ‘‘figuras’’ que nos assombram como os personagens lendários que povoaram nossa infância na forma do lobisomem, do bicho-papão, da mula-sem-cabeça, da bruxa malvada, é nos mantermos infantilizados, sem possibilidade de nos tornarmos adultos e, portanto, capazes de detectar e assumir nossas próprias falhas para superá-las.
De modo geral oscilamos de um extremo ao outro, sempre propensos a acreditar nas bobagens que nos pregam, e ao sabor das mesmas rimos com estardalhaço ou choramos desesperadamente sem procurar confrontar o que nos impingem com fatos da realidade. Exemplo disso é a lorota da crise, propalada aos quatro cantos por grupos que se opõem ao poder apenas pelo fato de desejarem substituir seus atuais detentores.
Entretanto, a economia continua estabilizada, o que nos faculta fazer planos para o futuro e gozar de melhor nível de vida. Nunca se viajou tanto, nunca se comprou tanto neste País e, se mesmo assim, estamos longe do paraíso perdido, pois continuamos a conviver com problemas estruturais oriundos de uma ‘‘embriogenia defeituosa’’, até o mais cruel dos problemas, o desemprego, começa a se encaminhar para alguma solução visto que a taxa de desemprego nacional caiu para 7,2% em julho, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em junho a taxa era de 7,4%., e em julho do ano passado estava em 7,5%. Ao mesmo tempo, a renda média cresceu 0,8% em 12 meses. Outra informação que traduz esperança em dias melhores é o crescimento da construção civil, que registrou no primeiro semestre deste ano crescimento de 1,91%. Como se sabe, esse setor é muito importante por conta de seus efeitos multiplicadores na economia.
Isso é pouco ainda? Talvez. Mas estes dados significam que estamos diante de sinais mais positivos do que negativos. Então, o que querem os arautos da crise que incitam a população a opinar num plebiscito sobre o pagamento da dívida externa, que agora está quase paga? Será que os pregadores do quanto pior melhor querem inviabilizar a entrada de capitais estrangeiros no Brasil, propositadamente confundida com submissão a interesses alienígenas? Sim, porque a estas alturas, o sentimento xenófobo e nacionalisteiro que pode emergir do tal plebiscito, só irá confirmar nossa fama internacional de caloteiros, fazendo recuar as divisas necessárias ao crescimento econômico do País.
Na ladainha da dívida se reúnem os salvadores da pátria, os ungidos, que simulando defender pobres e oprimidos mantiveram através dos tempos a pobreza e a opressão, muito cômodas para aqueles que são seduzidos pela tentação do despotismo.
Justamente os pequenos e grandes déspotas fantasiados de democratas, é que induzem a população à descrença da qual o voto emerge como instrumento inútil de transformação. Assim, passam facilmente a presunção errônea de que a democracia é conquista burguesa ineficaz, que as eleições deveriam ceder às revoluções supostamente eficientes para promover o bem comum.
Inimigos da liberdade de escolha e de consciência, os ditadores disfarçados falam em nome do povo duvidando que este seja capaz de votar. Entretanto, é necessário manter nossa democracia ainda que ela seja frágil; nosso direito de escolher nossos governantes mesmo com o risco de errar, pois é errando que se aprende; nosso dever de exercitar a cidadania que significa controlar o poder que nos controla. Fora disto resta o despotismo. E será que gostaríamos de ressuscitar os sistemas que foram sepultados em vários países do mundo? Imagino que não, e para isso temos o voto.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

mockup