A tempestade energética
Toda vez que a sociedade brasileira é solicitada, atende de pronto ao chamamento governamental, sempre colaborando de forma efetiva e responsável para sanar ou minorar problemas gerados por aqueles que administram um país que poderia ser do futuro. Poderia, mas que paradoxalmente vem retornando a um passado não muito remoto, quando os avanços tecnológicos engatinhavam sobre as mesas dos estudiosos técnicos e cientistas, projetando melhores condições de vida aos seres humanos, pois naquela época a geração energética era insuficiente, política sanitária e de saúde praticamente não existia, a educação era precária, a corrupção, o clientelismo e o peleguismo inundavam e enlameavam o País, com farta distribuição cartorial e de cargos. E o povo, ora o povo, sempe combalido, não tinha a quem se socorrer, e só era lembrado na época das eleições.
O que vemos e vivemos hoje? É incrível, mas vivemos o passado no presente, com um povo oprimido, excluído e sem perspectivas para o futuro, por culpa exclusiva de governantes ausentes, de uma grande parcela da classe política irresponsável e demagoga e de uma elite insensível e hipócrita.
Há um ditado popular: após a tempestade, vem a bonança. Pois bem, o povo brasileiro é um exímio expert em enfrentar tempestades, e algumas vezes foi enganado, como ocorreu em 31 de março de 1964, quando a elite brasileira com o apoio de uma imprensa facciosa e de uma igreja reacionária, transformou uma simples tempestade político-partidária num imenso ciclone, que numa lavagem cerebral fez com que o povo apoiasse a retirada de um governante popular e altamente democrático.
E deu no que deu. As consequências daquela postura insana, ingênua e enganosa, estamos vivendo até hoje, agora com a tempestade previsível da energia. E o povo, como sempre, foi chamado a enfrentar a tormenta energética, só que desta vez na marra, mediante as excrescências das Medidas Provisórias recheadas de penalidades e inconstitucionalidades, filhas dos famigerados decretos-leis utilizados nos regimes ditatoriais.
E aí está o povo, novamente enfrentando uma tempestade previsível, e que por incompetência deste e de outros governos que deixaram de investir no setor energético e relegaram a um segundo pleno outras fontes alternativas de energia. O Proálcool, que serviu de paradigma para muitos países do Primeiro Mundo, foi desmantelado, não se sabe em benefício de quem. O nosso País tem um enorme potencial da biomassa a ser explorado, como por exemplo o óleo diesel do dendê, o álcool e os resíduos vegetais, como o bagaço da cana, sem se falar na potencialidade da energia solar que possuímos em abundância, e a energia eólica.
Sem dúvida, o nosso País possui todas as condições para vir a ser a maior potência energética do planeta. E só não o é porque falta vontade política e apoio aos nossos competentes pesquisadores. Infelizmente, a grande maioria de nossos políticos, que se dizem nossos representantes (Êta democracia representativa!), sempre prometem possível o impossível, e tornam impossível o possível.
Por isso que após as tempestades o povo jamais sentiu a bonança. No Brasil a bonança é saboreada somente por uma elite que ainda teima em concentrar a riqueza nacional, em detrimento de uma maioria sofrida e espoliada. Ao povo caberá dar um sopro forte, a fim de que toda essa riqueza concentrada venha um dia a ser melhor partilhada.
Caso contrário, teremos sempre que conviver com a insegurança, com a violência, com um ensino precário e caro, com uma política sanitária e de saúde calamitosa, com altos índices de desemprego, com uma política salarial vergonhosa, com uma legislação trabalhista, penal e civil retrógrada, com um funcionalismo público desmotivado, com um policiamento desarmado e com péssima remuneração, com universidades sucateadas e quase quebradas por falta de maiores recursos e repasses, com professores arrochados salarialmente, com políticos inescrupulosos, oportunistas, populistas e exibicionistas diante das câmeras de TV, com a corrupção e irresponsabilidades administrativas, com as impunidades, com um Judiciário lento e moroso, com a delinquência e o tráfico, com um Executivo inoperante e um Legislativo irresponsável e acomodado, com uma política agrícola falha e ausente aos pequenos produtores e assentados, com uma política indigenista que não resguarda e não respeita os direitos dos não brancos, com as maledicências, o mau-caratismo, a hipocrisia e as imoralidades, com muita imprensa marron. E agora, com os apagões energéticos.
O povo (este está racionalizando o uso da energia de há muito, pois as contas de consumo são exorbitantes) saberá enfrentar com bastante energia esta crise energética, dando definitivamente um enorme apagão na maior parte de nossa classe política e elite encastelada, a fim de que os males de nossa sociedade sejam sepultados, para que um dia
juntamente com as novas gerações, possamos saborear a bonança e em alto e bom som dizermos: o Brasil tem futuro.
- ARMANDO DO LAGO ALBUQUERQUE FILHO é professor universitário em Dourados





