A tela de chuteiras - Rogério Menezes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de janeiro de 1999
Rogério Menezes 
Walter Salles e Fernanda Montenegro que se cuidem. Os patriotas de plantão, órfãos com a derrota brasileira na final da Copa de Mundo da França, já têm para quem voltar preces e bandeiras em 1999. Central do Brasil é forte candidato a concorrer - e ganhar - ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E mais: Fernanda Montenegro ganha a real oportunidade de subir ao palco do Dorothy Chandler Pavillion, ao lado de nomes como Meryl Streep e Susan Sarandon, e ser escolhida Melhor Atriz.
Nos últimos quatro anos o cinema brasileiro (não o Brasil) teve duas chances de ganhar o Oscar (com O Quatrilho e O Que é Isso Companheiro?). Em decorrência desse fato, o que se viu impresso nos jornais e revistas e falado na tevê por nomes ilustres da intelligentsia nacional beirou o grotesco. Nomes como Arnaldo Jabor viraram patriotas verde-e-amarelos capazes de recitar o hino nacional em tupi-guarani. Ou seja, um dos males do Brasil é: misturar alhos com bugalhos.
Transformar derrotas e vitórias de grupos e pessoas em derrotas e vitórias do país como um todo é mania nacional. Não foi o Brasil que perdeu a Copa do Mundo da França - foi a seleção brasileira. Da mesma maneira, não será o Brasil que poderá ganhar o Oscar em março de 1999. Tal mérito pertencerá única e exclusivamente ao diretor Walter Salles e a à atriz Fernanda Montenegro.
É assim no esporte. A pátria de chuteiras vaticinada por Nelson Rodrigues (e explicada por longo período de glória da seleção brasileira de futebol) ajudou brasileiros a sentir menos o chicote da ditadura militar que pairava sobre o país nos anos 70 (quando o time comandado por Pelé e Jairzinho conquistou o tricampeonato) e a anestesiar a crise abissal que o país estava (e está) mergulhado em 1994, quando a seleção brasileira foi tetracampeã mundial.
Há no país uma fusão demoníaca entre vitórias obtidas no campo esportivo e cultural com os destinos do país. Como se o fato de a seleção brasileira vencer a França numa final de Copa do Mundo ou ganhar o Oscar pudesse transformar as mazelas seculares que sufocam no país em gelo seco de teatro de Gerald Thomas. Não transformam - e não transformarão.
Tal falta de senso crítico entorpece o coração e a mente até dos mais iconoclasta dos críticos. O Quatrilho e O Que É Isso Companheiro? eram filmes apenas medianos, mas, entusiasmados por súbita chama de patriotismo, foram alçados à condição de clássicos do cinema. Central do Brasil é apenas um bom filme. Fernanda Montenegro já esteve mais fantástica em outras dezenas de papéis que imortalizou no teatro, no cinema e na tevê.
E caso ganhem o Oscar (tudo é possível nesta festa megalomaníaca e às vezes patética - a ponto de ter premiado produções medíocres como Rocky, o Lutador), a vitória será e única e exclusivamente deles. A vida do senhor José da Silva, não-morador de lugar nenhum da periferia de qualquer grande cidade do país, vai continuar mergulhada na mesma e absoluta miséria de sempre.
- ROGÉRIO MENEZES é jornalista em Brasília


