A teimosia da mudança
Teimo há tempos em afirmar que o Brasil está mudando. Não acredito que hoje haja mais corrupção do que ontem. Apenas que as vísceras do nosso País estão mais expostas que anteriormente e isso já é um belíssimo princípio de mudança. Através de uma imprensa cada vez mais livre, o povo brasileiro acompanha e participa deste processo de transformação social e política. Homens públicos, imbuídos de sarcasmos politiqueiros trazidos através de longas décadas, não têm mais lugar ao sol no palco da administração pública. Pode ser que eles distraídos e ofuscados pela ganância pelo vil metal não tenham notado; mas estão no lugar errado na hora errada.
O Brasil está decididamente no caminho da consolidação da jovem democracia e este passa necessariamente pela supressão definitiva da cultura vigente, até hoje caracterizada pela noção de impunidade arrogante, que nos obrigou a conviver com lobos vestidos de cordeiro sedentos do nosso sangue.
A cena constrangedora que o Brasil foi obrigado a assistir no último dia 4, com a prisão de vários acusados dos desmandos ocorridos na administração municipal de Londrina é pedagógica. Senti na hora da prisão um misto de sentimentos. Como integrante do Movimento pela Moralização na Administração Pública, não pude disfarçar a satisfação de ver que a Justiça está do lado da verdade e dos anseios da população.
Afinal, a luta pela reposição da moralidade foi de toda a cidade desperta, que não tolerava mais a ignomínia de se ver enxovalhada e aviltada, vendo passear impunes os que a espoliaram. Mas como cidadão, como ser humano, fiquei triste e pensei o quanto não seria mais bonito e dignificante para esta mesma cidade que nos poupassem desse constrangimento. Ver um homem que foi prefeito três vezes eleito pelo povo sair como um vil ladrão acotovelado pelos munícipes não foi a melhor visão que já tive.
Depois verifiquei com certa tristeza que uma boa parte dos mesmos cidadãos londrinenses achou a prisão humilhante. Estranho? Não. Uma questão de moral e de cultura, diria eu. O juiz Arquelau foi feliz no seu despacho ao afirmar a simetria da qualidade dos autores de vários crimes. Afinal, qual a diferença entre o latrocida e o rico de colarinho branco? Segundo ele, nenhuma. Ou melhor, a balança pende ainda sobre o segundo. Este percorria os mesmos corredores que as pessoas de bem, abraçava, beijava e... roubava!
Mas então por que corrupto não rima com delegacia e leva muitos a serem possuídos por um estranho sentimento de dó? Por uma razão muito simples. O inconsciente coletivo de nosso povo foi induzido durante séculos a associar erroneamente o xadrez a pobres, desvalidos, raças excluídas e fragilizadas por várias circunstâncias. Roubar para comer ou para não deixar sua esposa morrer, leva inevitavelmente à cadeia, hipocritamente para salvar o Estado de Direito, que não contempla exceções.
Mas fazer com que gente fina veja nascer o sol quadrado era até ontem incogitável. Ter pena de um triprefeito que dorme umas noites numa cela, não chega a ser nenhuma manifestação de humanidade. Antes fosse. É infelizmente a consolidação da célebre expressão francesa: Todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que outros.
A prisão de alguns envolvidos no escândalo da roubalheira da Prefeitura de Londrina foi exemplar, isso sim. A cassação dos dois senadores implicados na violação do painel de votação do Senado, esperada pelo povo brasileiro, também o será. O Brasil precisa mudar culturalmente e esse parto só acontece com base em pequenos mas certeiros passos, que devolvam aos simples a esperança e a certeza de que dá ainda para confiar nas instituições.
A impunidade gera injustiça; esta gera descrédito e este por sua vez patrocina um sistema de vantagens e favores e de manipulações variadas que colocam em risco a frágil democracia. A punição exemplar fez com que países como a Itália e os EUA vencessem guerras internas contra a criminalidade organizada, resgatando perante os cidadãos a certeza de que o crime não compensa.
A própria Justiça se muniu de artefatos necessários para levar adiante este empreendimento, assegurando a vitória sobre a consciência de impunidade já instalada em muitos setores. A credibilidade de nosso País no estrangeiro no momento atual, passa obrigatoriamente pela moralização da sociedade e das instituições da república. O fluxo de capital de lá para cá é proporcional ao grau de coragem que tivermos em limpar nossas eiras e garantirmos o desejo de que a corrupção não pode ser o habitué de nossos governantes. Ela sempre existirá. Mas o corrupto pensará duas vezes antes de perseguir esse caminho.
A luta não pára por aqui. Essa gente roubou o dinheiro dirigido para nossas creches, escolas, postos de saúde etc. Desviaram não só a finalidade, como o levaram para casa. Só nos tranquilizaremos quando a Justiça trouxer o dinheiro de volta! Não poderemos tolerar que daqui a algumas décadas, os descendentes dessa gente humilhem seus concidadãos com sinais externos de riqueza, perturbem a ordem e o equilíbrio social e ainda digam de boca cheia: Nossos pais deram duro nesta cidade para termos o que temos agora. Londrina não vai aceitar essa situação! Vamos virar definitivamente a página e criar um Brasil com outros quinhentos.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é Assessor de Comunicação da Arquidiocese de Londrina e integrante do Movimento pela Moralização na Administração Pública





