A tecnocracia de Malan - Gaudêncio Torquato
A tecnocracia de Malan
Gaudêncio Torquato
O ministro Pedro Malan, ícone maior da tecnocracia brasileira, começa a viabilizar sua pré-candidatura a presidente da República, com o aval do presidente Fernando Henrique. Seu nome esquenta as conversas do grupo encastelado no centro do poder. Já conta, inclusive, com dois endereços eletrônicos na Internet voltados para a eleição de 2002. Nenhuma objeção quanto à indicação. Qualquer brasileiro, no uso de seus direitos políticos, tem condições de disputar cargos. O que se pode estranhar é a transferência abrupta de um perfil técnico, solidamente desenvolvido ao longo de uma carreira na administração pública, para uma identidade política.
Fosse Malan um técnico com feição política, acostumado aos salamaleques e entreveros que a vida parlamentar propicia, uma eventual candidatura ao mais alto posto da República seria vista como algo até natural. Coisa parecida como Carlos Salinas de Gortari, formado em Harvard, ex-ministro de Programação e Orçamento, que chegou à Presidência do México. O nosso ministro, porém, é talhado pelo aço mais duro da tecnoburocracia. Mais que isso, no Brasil do Real, ele simboliza o bastião que tem impedido investimentos maciços na área social.
Por trás do aspecto factual, o que pode estar ocorrendo é uma alteração de fundo no escopo do nosso incipiente sistema democrático. As democracias em sociedades em fase de transição, como a nossa, estão sujeitas a sismos e tremores, na maior parte das vezes provocados por políticas inflacionárias que levam os países à bancarrota. Algumas vezes, são salvos por experiências de técnicos com seus planos de estabilidade. Forma-se uma tecnodemocracia, reunindo a nata da burocracia governamental, os círculos de negócios e uma representação parlamentar, que vive a reboque do Poder Executivo.
Malan, portanto, está sendo plugado pelo Real. Em um espaço relativamente curto, conseguirá personalizar a política, assumindo uma vestimenta que já não lhe será mais estranha. A indústria da persuasão fará de Malan o protótipo do homo politicus. Com ajuda de climas instáveis, como esse de ameaça de risco institucional, apontado nos últimos dias pelo próprio presidente FHC, ao inferir sobre as consequências do germe da violência, em expansão, e a superexposição da corrupção, uma candidatura com marca apolítica até ganharia mais força. Ingressaríamos num estado de des-razão, des-realidade, termos que Roger-Gerard Schwartzenberg, em seu Estado Espetáculo, encontra para designar uma sociedade entorpecida em sua capacidade de raciocínio, sem condições de apreender as realidades e que apela mais para as impressões do que para as informações.
Afinal, qual o significado de uma eventual candidatura Malan para a nossa democracia? Em primeiro lugar, a subordinação do escopo democrático de nossa política a uma visão acentuadamente tecnicista. Significaria a fragilização de alguns princípios clássicos: a experiência que se exige para que uma pessoa postule um alto cargo na vida pública; a passagem do candidato pelo Parlamento, o contato com as massas, o compromisso com um programa social de vulto, a vida partidária, entre outros.
O ministro Pedro Malan é um homem sério e de muito valor, é oportuno frisar. Mas não é saindo de uma proveta que ajudará o País em seu projeto de consolidação institucional. Ademais, a grande crítica que se faz ao governo Fernando Henrique é o fato de não ter direcionado a mão forte da administração para as áreas marginais. O sucateamento da estrutura social do País é visível. Doenças do princípio do século voltaram. Os serviços públicos são lastimáveis. Quem comanda a política monetarista com mão de ferro? Ele mesmo, Malan.
Como estamos em pleno mundo virtual, onde realidade e ficção se encontram simbioticamente, o ministro da Fazenda poderá ser o primeiro candidato virtual de nossa democracia. Montesquieu cunhou a observação: Cada regime se baseia num princípio que expressa sua realidade profunda. É isso mesmo. Cada tempo se apóia num valor maior que explica sua natureza. E a força do nosso tempo é o poder do Real. Capaz de substituir valores da democracia representativa por uma tecnocracia digna dos tempos da ditadura militar.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, consultor político, professor universitário titular e de pós-graduação em São Paulo
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